Epistemicídio: Perder línguas nativas é perder plantas medicinais, dizem estudos.

No século XIX, Alexander von Humboldt propôs que a língua é responsável por condicionar o pensamento. Não há tradução, portanto, que possa transmitir o conhecimento dos povos sobre a natureza, e o mais adequado é preservar esses idiomas e suas bagagens.

Ritual do povo Yawalapiti, cuja língua é a original do Alto Xingu, hoje falada por apenas três pesoas. | Foto: Jean Marconi

A aspirina tem seu princípio ativo extraído do salgueiro (Salix alba L.) e  a morfina é extraída da papoula (Papaver somniferum). Porém o uso das plantas para a cura não se resume à formas já amplamente comercializadas: as línguas das comunidades nativas do Brasil são portadoras de conhecimentos exclusivos sobre plantas medicinais, como o cedro, responsável pelo alívio da artrite, artrose e osteoporose, conforme ensina o Pajé Cizino Karitiana. A extinção desses idiomas significaria a extinção de importantes conhecimentos sobre tais plantas. As constatações foram obtidas em artigo publicado pela jornalista Sibélia Zanon na plataforma internacional de notícias Mongabay, especializada em meio ambiente.

A Universidade de Zurique, na Suíça analisou três regiões (Amazônia, Nova Guiné e América do Norte), e descobriu que 75% dos usos de plantas medicinais são conhecidos em apenas uma língua. Parte do conhecimento sobre plantas medicinais está atrelado a línguas de povos nativos que estão ameaçadas de desaparecerem. Focando no Noroeste da Amazônia, em um universo  645 espécies de plantas e seus usos medicinais conforme a tradição oral de 37 línguas, temos que 91% desse conhecimento existe em apenas um idioma.

Os pontos nos mapas indicam a distribuição de idiomas que citam plantas medicinais. As barras vermelhas mostram o percentual de conhecimento medicinal restrito a apenas um idioma na América do Norte (A), no noroeste da Amazônia (B) e na Nova Guiné (C).

Em 2019, Rodrigo Cámara-Leret esteve na amazônia com a mesma inquietação, e chegou às mesmas conclusões. O pesquisador relatou choque ao descobrir que idosos faleceram sem condições linguísticas de compartilhar o conhecimento que possuiam sobre procedimentos tradicionais de cura. No levantamento feito por ele, cada comunidade conhecia cerca de 41 espécies e até 94 usos diferentes só pra palmeiras.  A utilização difere da segmentação que nós aprendemos a criar: muitas plantas são simultaneamente absorvidas como medicamento, alimento e componente de rituais. No já citado Cedro, por exemplo, o que se faz durante o tratamento é pediir gentilmente à planta para que “empreste” sua robustez para os ossos do portador.

Não se trata, portanto, de escolher entre plantas ou línguas: o biólogo Jordi Bascompte considera que extinção das espécies e extinção da cultura são inseparáveis, a ponto de não ser  possível preocupar-se isoladamente com uma ou outra.

Para Luciana Sanchez Mendes, linguista especializada em idiomas “indígenas”, as escolas especializadas são a solução, com o ensino tanto da língua nativa quanto do português. A revitalização foi possível na comunidade Pataxó, que viu seu léxico ser retomado por meio de pesquisas de campo realizadas desde 1998 e do ensino do Patxohã, como foi denominada a nova fase do idioma. 

Uma das maiores iniciativas já realizadas para evitar o epistemicídio é o  Léxico de plantas dos Karitana, desenvolvido pela USP. Ele é resultado de uma tese de mestrado em semiótica e linguística geral, defendida por Lucas Blaod Ciola sob orientação da Profª. Drª. Ana Lúcia de Paula Muller. Nota de rodapé desse “paper” expressa nosso problema:

“Ainda não houve nenhum esforço maior de documentar as plantas usadas  na medicina karitana que permita-nos conhecer a tradução para o português ou o nome científico de cada espécie.”

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