Em 2018, 84% dos brasileiros enxergavam polarização no país 

Pesquisa foi feita com 19.500 pessoas em 27 nações, incluindo o Brasil. 76% dos entrevistados disseram que seus países estão divididos. 

Brasília – Manifestantes pró (à direita) e contra (à esquerda) o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados. | Foto: Juca Varella/Agência Brasil

Nosso país estava, em 2018,  em sétimo lugar nos países com maior percepção de polarização, empatado com Estados Unidos, Polônia e Espanha; O líder do ranking é a Sérvia, seguida de Argentina, Chile e Peru. Ainda na ocasião, 62% dos brasileiros viam o Brasil como mais dividido do que em 2008 , 10% disseram confiar nos outros e 29% achavam  os brasileiros tolerantes com pessoas de culturas ou de pontos de vista diferentes. As entrevistas ainda constataram que  diferenças políticas, sociais, raciais e econômicas são as principais causas de um mundo cada vez mais dividido por conflitos e polarizações.

Apesar da antiguidade  da estatística,  a tendência  é que a situação tenha piorado, conforme analisa a psicóloga Eleuza Gonçalves Ferreira (CRP 09/4503). Ela ensina que a compreensão é uma capacidade do repertório comportamental que precisa ser aprendida desde a infância, “por exemplo, quando entendemos que é preciso dividir as coisas com o irmão”. Eleuza diz que não é saudável ensinar aos pequenos que é uma obrigação estar feliz o tempo todo. Ao longo do desenvolvimento do indivíduo, é isso que vai tornando-o intolerante, incapaz de compreender o outro.

“A gente vai aprendendo a ser intolerante nas nossas relações. E temos também o reforço social, as pessoas com quem eu convivo normalmente pensam da mesma forma que eu e isso vai me dando força, a força do grupo, a identidade social e eu vou ficando mais intolerante às pessoas que pensam diferente de mim.”

[…]

“As características que podem ser adquiridas também podem estar relacionadas às questões cerebrais. No cérebro temos as funções executivas, que determinam nossa capacidade de planejamento, organização, regulação emocional. Se eu tenho alguma dificuldade em relação a isso, eu vou ser uma pessoa com menos flexibilidade cognitiva, quando eu sou menos inflexível eu posso ser menos tolerante”

Eleuza não credita diretamente às redes sociais o aumento da intolerância, mas ao mau uso das mesmas, visto que  “eu posso ter todas as redes sociais possíveis e continuar sendo eu mesma”. Porém, o que se ressalta é o poder de reforço positivo da internet: a liberação de dopamina – hormônio associado ao prazer e satisfação – a cada like ou comentário validador, vai caminhando com o indivíduo até pontos de vista cada vez mais extremados, em busca de mais recompensa. Colabora, para tudo isso, o Efeito de Dunning Kruger: uma ausência até mesmo de conhecimentos básicos em uma área (como a política), que torna a pessoa criadora e validadora de hipóteses pessoais, crente de que é uma “especialista” no assunto. É a longa exposição  ao tema que traz a ilusão de profundidade de conhecimento, somada à capacidade dos algoritmos de redes sociais de nos apresentar conteúdos que confirmam nossa visão de mundo, já que são mais fáceis de serem validados por nós.

Ontem, 17 foi o Dia da Compreensão Mundial. A ideia da data é conscientizar a humanidade sobre a importância dessa competência emocional. Também a ONU criou sua própria data: o Dia Internacional da Tolerância, 16 de Novembro, com os mesmos objetivos.

Um dos que discordam da teoria de um Brasil polarizado é o doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Tocantins/UFT César Alessandro Sagrillo Figueiredo. Em artigo publicado no site “Correio MA”, ele defende que a narrativa é uma farsa criada para justificar “um discurso de ódio estéril para esse grupo autoritário se manter no poder“. Para embasar o argumento, dá um exemplo:

“no cenário político atual há o estímulo a massacre dos povos indígenas e ações contra a demarcação das suas terras – confrontando e questionando: por acaso antes, havia no ciclo petista o estímulo ao massacre de latifundiários com assassinatos ou invasão de terras produtivas? Obviamente que não houve.

[…]

onde ficou (no passado) ou mesmo onde está (no presente) a agressão do outro lado?  Em síntese, toda a mentira, infelizmente, acaba tornando-se uma verdade quando ela é reiteradamente repetida muitas vezes.”

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