Receitando um amigo: o papel do animal de apoio emocional

A estrategista digital Fernanda Rabaglio, que trabalha com conteúdos Pet, relata sua experiência de vida com os chamados cães de apoio emocional. Ao contrário do que muitos supõem, eles são diferentes dos animais terapeutas.

Maya e Fernanda. | Foto: Arquivo Pessoal

Fernanda Rabaglio, 34 anos, paulistana, bacharela em Designer, atua como estrategista digital na empresa Matilha Brasil, que treina influenciadores Pet e produz conteúdo ligado ao nicho. Filha única, sempre foi  extremamente tímida. Quando pequena, relata que sofria com os momentos em que precisava ir à lousa resolver algum problema de matemática – ainda mais porque a matéria nunca foi o seu forte. A professora, por afeto, insistia nesses momentos, entendendo estar ajudando. Ocorre que, em algum momento, o cálculo saiu errado, gerando ainda mais nervosismo, o que levou a um desmaio na fila do recreio minutos depois. Foi aí, aos 8 anos, que a depressão começou. Após o desmaio, nada voltou ao normal: ela conta que ‘não parava de pé’, além de dormir em excesso.

“Como começou com desmaio, suando frio, acharam que era algo clínico, não algo psicológico. Em 1994, 1995, os estudos eram muito menores. Minha mãe nunca tinha ouvido falar de depressão em criança, até porque ainda era uma mentalidade de que a depressão vem de um problema, e você não entende que criança tem um super problema. Não se via ainda depressão tanto como uma doença.”

A intensidade e a frequência com que fala das crises a faz lembrar das mais impactantes:

“depois [da primeira] eu tive crise em 12 pra 13 anos, não sei mais que ano que era isso, tive uma crise mais leve com 16, aí depois foi a forte com 21 e depois em 2015 eu tive a última.

[…]

Meu pai ajuda, ele lembra mais das crises do que eu. “

O ‘fundo do poço’ e a chegada dos cães

O ano de 2008 viria a ser o mais dramático em sua história. Então com 21 anos, veria partir sua mãe no mês de Abril, após 87 dias internada por um quadro de hidrocefalia. Logo que soube da primeira parada cardíaca, largou trabalho e faculdade para estar em Uberlândia com a família, cuidando de tudo. Meses depois, em um meio de semana de Agosto, um amigo a encontraria preparando tudo para jogar-se do 14º andar do apartamento, bem de frente para uma área sem circulação de pessoas, onde não seria encontrada senão dias depois. ‘Pior ano da vida’, confessa.

” De vez em quando ele dava umas insertas se eu não respondia, na época, o MSN, daí ele passava lá em casa.

[…]

Eu fiz uma faculdade que a minha mãe queria muito que eu fizesse. Eu já tinha perdido minha mãe, estava numa casa onde tinha convivido muito com ela, então tinha todas as lembranças dela naquele ambiente, tanto que em 2012 eu mudei de lá, pra tirar tudo da mente.”

As pesquisas indicam que o início da fase adulta marca um salto no número de suicídios, isso a nível global.

“são dois momentos muito difíceis: a adolescência como um todo e a transição do adolescente pro adulto. Pra quem já tem qualquer transtorno, começa a ficar um pouco pior. Bem nessa fase – eu sou filha única, né, era muito apegada com a minha mãe, tudo eu tava junto com a minha mãe, e aí ela faleceu.”

Passaram-se 8 anos até a chegada dos cães como forma de cura. Antes disso, já tinha contato com os animais, porém acabou descobrindo uma alergia a certos tipos de pelo canino ‘séria mesmo, de cair as unhas e estourar pus’, que reduziu sua possibilidade de proximidade física às raças ditas ‘primitivas’. Após a prescrição, foi procurar seu animalzinho ‘em uma comunidade no fim da zona leste, longe à beça’ e achou Maya, sabendo desde o início que seria ela. Porém, por influência do então namorado, acabou adotando também o Prince.

“O Prince é um cachorro extremamente medroso, assustado. Ele não tem uma maturidade emocional, não é um cachorro que você olha pro comportamento e fala que é um cachorro adulto de 5 anos, ele tem menos maturidade do que o meu outro, filhote, que tem 6 meses. Ele tem a Maya também como apoio emocional. Os cachorros podem usar ou o seu humano ou outro cão da casa como apoio emocional”

Prince e Fernanda. | Foto: Arquivo Pessoal

Se antes o trabalho era com conteúdo ligado a turismo e imigração, até mais ou menos 2018,  após a prescrição dos cães surge a ideia e a oportunidade de embarcar no mundo dos perfis pet. Os Pet Influencers, explica, são aqueles animais que ‘possuem’ um perfil próprio em rede social, geralmente Instagram. 

Veio, em todo esse contexto, a revelação de que é muito comum o transtorno conhecido como burnout, caracterizado pelo esgotamento emocional, dentre os influencers. Trabalhar com um animal é ter uma companhia de vida e até mesmo de trabalho, mas adverte que é necessário reconhecer as limitações do parceiro. A entrevistada conta que muita gente larga a vida de influencer por conta do burnout.

“é o tal do always on [SEMPRE ON-LINE] que gera muitos problemas”

Juntando a rotina na Matilha e o apoio emocional liderado por Maya – e digo ‘liderado’ pois existem ainda outros 4 chow-chows dividindo o lar com ela – os sintomas foram diminuindo e Fernanda finalmente pôde libertar-se da medicação. Maya ainda não tinha treinamento quando chegou em sua vida, mas foi aprendendo a ser o conforto necessário. O adestramento de fato veio quando já tinha 1 ano. Hoje, ao ver sua humana sentada em um canto chorando, com a cabeça dentre os joelhos, a companheira usa seu fucinho para levantar a cabeça em prantos e dar o alento necessário. O pai de Fernanda diz que é uma cena emocionante de se ver.

“No final das contas a impressão que a gente tem – eu já conversei com algumas pessoas que também sentem isso – é que eles estão batendo a pata em você e falando ‘calma, eu tô aqui, vai dar tudo certo’. Tem sempre uma patinha amiga em você dizendo ‘calma, eu tô aqui, tá tudo certo, a gente vai vencer isso aqui juntos.'”

Maya em adestramento. | Foto: Arquivo Pessoal

Dois conceitos distintos

Se o que mais conhecemos é a ideia de cão-guia, fato é que o imaginário popular confunde cão de apoio emocional com cão terapeuta, e Fernanda me ensinou essa diferença: é que o cão terapeuta é treinado para visitas específicas, por exemplo, em hospitais, asilos, casas de idosos e crianças acamados, geralmente providos por organizações da sociedade civil ou cedidos por pessoas que se dispõem a dar banho, tosa e demais cuidados do seu cão para colocá-lo à serviço do outro. São preparados para agir de maneira menos ‘enraizada’ do que o cão de apoio emocional, que convive todo o tempo com seu apoiado, auxiliando durante o curso da vida de um modo geral. Esses são treinados para uma vida de apoio, não eventos delimitados no tempo, adestrados para a sensibilidade e obediência.

“Ela [Maya] é aquela cachorra companheira, parceira, ela tá comigo em todos os lugares, parece que ela sabe que é cachorro de apoio emocional. Aonde eu vou ela vai sentada ao meu lado, ela me defende de tudo, se eu não estou bem ela sabe me animar.”

Dante, cão terapeuta, em visita à UTI. | Foto: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto

As políticas públicas

Fernanda sintetiza seu percurso na “tríade do tratamento”: Psicólogo, Psiquiatra e Cão. Apesar de já ter tentado acupuntura, não viu resultado – o medo de agulhas, acredita, pode ter ajudado nisso. A paulistana revela, ao contrário do que se poderia imaginar, que tudo isso foi feito por meio do SUS. Hoje ela depende de um laudo médico para conseguir ter Maya ao lado, mas a falta de legislação faz cada local solicitar coisas diferentes, chegando alguns a pedir a carteira de vacinação do animal.

“Eu tenho uma raça considerada agressiva, o chow-chow, então a chance deu conseguir voar com ela é quase zero. Já fiz muita viagem com ela, mas vou de carro, daí aproveito e levo todos eles.”

Há que se contar com a sorte também, haja vista que nem todos os profissionais optam por essa abordagem. Nesse caso, acabou que a filha do psiquiatra que a atendia também utilizava do recurso, o que encorajou o profissional na tentativa.

Em 2020 foi apresentado, na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 3759, que “dispõe sobre o transporte de animal de assistência emocional e animal de serviço nas cabines das aeronaves das companhias aéreas brasileiras.”. A última movimentação registrada é uma devolução da Comissão de Viação e Transportes para a Coordenação das Comissões Permanentes, em 4 de Agosto. A propositura é uma iniciativa em direção a um cenário de nenhuma legislação focada nos animais de apoio emocional. Outros projetos esparsos aparecem em casas como a Câmara Municipal de São Paulo e a do Rio de Janeiro, mas ainda sem avanço concreto. O levantamento foi feito com ajuda da advogada Aline Santolin, também aluna da “Academia do Matilha”.

” Várias cidades tem projetos para ser consideradas de fato uma cidade pet friendly. Saiu na mídia essa semana o projeto de Fortaleza, por exemplo.
No fundo, o pet se tornou família e apoio emocional, direto ou indireto, pois ele substitui o filho, é companhia para muitos lugares e muitas vezes a pessoa deixa de visitar um lugar apenas por não aceitarem a presença do seu pet, eu por exemplo, sempre prefiro lugares que eles entrem, do parque ao restaurante, e com a pandemia tudo fica ainda mais forte, pois a solidão e a ansiedade cresceram muito, bem como a depressão aflorada pelo medo e perda de entes queridos. Logo, o cão é cada vez mais companhia, presença, apoio emocional e pata amiga. A prova disso é a crescente de adoções em 2020.”

Fernanda Rabaglio

De viajante e ‘mochileira internacional’, Fernanda Rabaglio passou para a tranquilidade de trabalhar em casa, com seus ‘colegas de trabalho’, em um mercado que, segundo ela “só cresce” e “em 2020 cresceu 13,5%”. A profissional acredita que “não há crise no mercado pet” e vê, em plena pandemia, a prosperidade.

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