Por que o suicídio é mais comum na Segunda-Feira?

Tendência ainda enfrenta pesquisas, mas com boas pistas. Além das estatísticas, nomes famosos seguem o padrão.

Foto: laarena.com.ar

Segunda-Feira, 30 de Abril de 1945, Alemanha; acontecia o que talvez possa ser chamado de suicídio mais importante da história: Adolf Hitler atirou contra sua própria cabeça, assumindo o papel que muitos não conseguiram assumir: de assassino do líder do Holocausto. Voltando algumas segundas-feiras no tempo, em 6 de fevereiro de 1899, botava fim à própria vida o príncipe Alfredo de Edinburgo. Saltando novamente para o futuro, paramos em 2013 com o baixista do Charlie Brown Jr., Champigon, e em 2014, com o ator Robin Willians. Os exemplos continuam: Rei Dipendra do Nepal, Flávio Migliaccio, o diretor Chantal Akerman… todos no mesmo dia da semana: Segunda-Feira.

O que pode ser visto como uma simples coincidência entre celebridades tem também amparo nas estatísticas: segundo o Center for Disease Control and Prevention, dos Estados Unidos, os casos de suicídio costumam ocorrer às segundas e terças. O Sistema Estadual de Análise de Dados chegou a um perfil parecido: domingos e segundas, principalmente nos meses de calor. Qual a explicação para esse padrão?

A pergunta segue sem resposta conclusiva, mas há incursões na análise dos ciclos do corpo humano que podem oferecer pistas.  Um estudo realizado em 2018, em ratos, constatou que a alteração na iluminação provocada pela diferença de posição em relação à linha do equador interfere diretamente na tendência ao suicídio, por afetar genes responsáveis pelo ritmo circadiano. Outro artigo, da Doutora em psicobiologia Katie Almondes, ensina que a perda de sincronia dos ritmos internos e externos causa  alterações de humor e dificuldade de atenção.

” Profissionais de saúde submetidos a esquema noturno ou alternante apresentam prejuízos cognitivos, fadiga, ansiedade, problemas emocionais, depressão e distúrbios de sono.”

Dra. Katie Moraes de Almondes

Trabalhos de 2020 no campo da psiquiatria demonstram que indivíduos com transtorno bipolar são os mais sucetíveis a alterações fisiológicas quando submetidos a rupturas nos ritmos do corpo, e que esse transtorno torna o portador 20 vezes mais propenso ao suicídio do que a população em geral.  A estimativa é de que um terço dos bipolares tentará suicídio em alguma fase da vida, 70% na fase depressiva, e 13% morrerá.

Segunda-Feira tornou-se, culturalmente, o dia do retorno à massividade do trabalho e dos problemas que geralmente surgem justamente no meio da semana. Isso pode, longe de gerar por si só, incentivar uma mentalidade que já vinha negativada. Essa hipótese, focada no ‘mal-estar’ de início de semana, é da psicoterapeuta Moira Petrucci. Para ela, é importante que existam ciclos que nos ensinem que tudo é passageiro, mas tal discernimento só será atingido por meio da reflexão, que deve abarcar as conquistas já obtidas, visando reaver a vontade pela vida.

A psicóloga Carmela Silveira (CRP 06/99443) prefere olhar para o outro lado da moeda: dos finais de semana e feriados que antecedem os dias de mal-estar. Há uma impressão de que tais dias trariam boas novas, e eventuais frustrações levam ao dia seguinte  um clima de “falta de motivação e mesmo à sustentabilidade da pessoa com relação ao que ela é, fazendo com que ela não suporte a própria dor da solidão “. A solução para isso, conclui, é o autoconhecimento e mesmo a terapia. Por fim, adverte:

Carmela Silvana da Silveira
Foto: Santa Casa de São José dos Campos

“Particularmente não gosto de associar figuras históricas ao suicídio em si, porque cada caso é um caso. Falar de um nome histórico para uma comparação, entendo que não é um bom viés para se falar.”

Carmela Silveira

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