Bia Sá é a sexta descoberta da Salon Line

Projeto ‘Me grava’ colocou a carioca para gravar seu forró “Amanhecer” junto com Max de Castro. Segue uma entrevista gentilmente concedida pela cantora.

Bia Sá, 32 anos, Fonoaudióloga, Cantora e Compositora. É a 6ª voz do ‘Me Grava Salon Line’, projeto onde musicistas tem a oportunidade de gravar um clipe com a produção de Max de Castro, lançado no dia 23 de Agosto. O hit de Bia se chama ‘Amanhecer’, forró em lá maior, de equalização limpa e bem ‘amarrada’, sem acidentes harmônicos. A voz, durante o discurso musical, estende-se por uma oitava e meia, sem aparentar esforço ou desgaste.

Foto: Reprodução/Instagram (EDITADA)

A entrevista com Bia foi uma conversa onde nem vimos o tempo passar. Foram 35 minutos que pareceram 5, com muitas risadas e muita troca de visões de mundo. Passamos pela carreira de cantora, de fonoaudióloga e falamos até um pouquinho de astrologia. Alexandre Manisck, idealizador do ‘Me Grava’, definiu-a como “um dia ensolarado”. Espero que, ao longo dessa transcrição, fique evidente o quão justa é essa metáfora. Tomei o cuidado de registrar traços mais importantes, em especial o carinho ao me chamar pelo nome em dados momentos do diálogo.

BIA: Eu sou uma carioca paulistana e de sangue baiano: sou carioca, minha família é da Bahia, mas fui criada em São Paulo.

Sabe, eu tava vendo: a Jú publicou uma outra matéria falando do Max, e o Max também é carioca criado em São Paulo, achei curioso.

VINICIUS: Rolou uma sincronicidade na hora de produzir então…

BIA: Sim, hahahahah, acho que sim.

VINICIUS: Você fez a Fono na USP, né?

BIA: Foi.

VINICIUS: E desde pequena gosta de cantar?

BIA: Sim, desde pequena. Cresci com a família montando um som. Meu pai é compositor, então a gente cantava muito o repertório dele, as composições dele, das músicas que ele e minha mãe gostavam de ouvir, músicas baianas. Tinham muita história com o carnaval também, então era  sempre uma festa em casa. Os ambientes que eu frequentava quando criança eram bem estimulantes musicalmente.

VINICIUS: Seu pai é compositor profissional ou como hobbie?

BIA: Ele é compositor como.. hobbie, eu acho… Tiveram outros artistas, lá em Salvador, que gravaram as músicas dele. Ele compôs a primeira música do bloco camaleão, lá em Salvador. Na época não tinha ainda Chiclete com Banana [etc.], quando lançou o bloco ele fez a primeira música. E cantava nos festivais interestudantis que tinha em Salvador… sabe festivais intercolegial?

VINICIUS: Sim.

BIA: E aí ele ganhou um festival lá em Salvador. Hoje ele compõe pra ele, pra família, tem alguns músicos profissionais na Bahia que cantam com ele…

VINICIUS: Eu vi que tem muita baianidade na sua música, impressionante…

BIA: Aham.

VINICIUS: O sotaque até, o jeito de cantar…

BIA: Ah, é, você achou?

VINICIUS: Achei bastante.

BIA: Olha, acho que eu misturo muito, me sinto muito misturada.

VINICIUS: Bem brasileiro.

BIA: Que bom que você achou bem brasileiro, me identifico super.

VINICIUS: Bem brasileiro e bem… enfim, claro que é da produção musical também, mas é um pacote muito bem fechado musicalmente falando.

BIA: Ah, que bom que tem essa consistência.

VINICIUS: E como você descobriu que queria ser fonoaudióloga?

BIA: Ah, eu descobri porque já trabalhava – quando eu estudava no colegial eu trabalhava na escola pra poder ter bolsa – com criança pequena. Era mini mini maternal. Quando eu estava procurando uma profissão, pesquisando algumas profissões, eu sabia que me identificava muito com a infância, com a musicalidade, com os estilos de voz que eu queria estudar, aprender. Achei que era uma profissão que integrava muito os meus interesses. Sempre fui muito cuidadosa, gostava de transformar o ambiente, mudar o ambiente, até musicalmente. Achei que poderia me dar bem nessa área.

Ah, nessa escola que eu trabalhava, Vinicius, tinha uma mãe que era fono, e eu perguntei pra ela como tinha sido a história dela. Ela me contou e eu fiquei super interessada.

VINICIUS: Que legal. E uma fonoaudióloga cantora, né?

BIA: Sim, pois é. Na própria faculdade quando montavam os painéis, quando iam fazer os eventos, eu cantava. As próprias professoras já me identificavam como fono e cantora.

Foto: @sidetoni

VINICIUS: E você usa muito das técnicas, né? Dá pra perceber que sua voz é muito limpa.

BIA: Ai que legal, brigada! Eu uso bastante. Depois que me formei, na pós-graduação eu fiz voz Acho que na história toda, fazendo a pós, a graduação e aulas de canto, fui me aprimorando. Não acho que tenho uma voz tão perfeita, mas estudo bastante.

VINICIUS: Nessa música eu bati aqui [o teclado com sua voz], e eu achei aqui do fá sustenido 3 até o si 4.

BIA: Olha que legal! Que nerd  musical, adorei!

VINICIUS: hahahahah , me pareceu muito uma soprano, mas você é muito cheia de harmônicos, acho que a fono ajudou bastante…

BIA: é, pode ser…

VINICIUS: Eu demorei a entender em qual oitava você estava cantando porque você transmite muitos harmônicos.

BIA: Olha, que coisa! Cê sabe, Vinicius: eu não sei muito da teoria musical, isso é um desafio pra mim. Mas acredito que hoje ampliei minha extensão, e gosto bastante de explorar esses registros: ir pra voz de cabeça [ – voz mais aguda, onde o centro de pressão muscular é a cabeça – ],  fazer os graves, colocar harmônicos, enfim.  

VINICIUS: E as pessoas te procuram pra aprender a cantar?

BIA: Olha, sim, elas procuram, porque me veem cantando muito nos trabalhos e agora, durante a pandemia, acho que as pessoas decidiram se conhecer mais, sabe, se encontrar em outras coisas. Aquele tempo que entregavam pra outras coisas que não pertenciam a elas mesmas, acho que colocaram em auto-conhecimento, em hobbies, em criatividade… Muita gente me procurou querendo fazer aula de canto. Eu não me propus a fazer essa experiência com pessoas já profissionais ou que já cantavam, por não ter a teoria e não ser exímea tocadora de teclado ou de violão. Propus fazer com que as pessoas que não tinham experiência nenhuma encontrassem sua voz, encontrassem sua musicalidade.

É muito comum mesmo que profissionais como fono deem aulas de canto, e é legal, dá pra integrar bem. Tenho dado algumas aulas de canto sim, e trabalhado algumas técnicas: respiração, ressonância, essas coisas… tem sido muito legal, a galera está se descobrindo.

VINICIUS: Você foi bateria na faculdade, já fez barzinho. Até abri seu instagram: você tem um ar bastante alegre, né? Bastante leve… Bastante sagitariano!

BIA: Ah, você achou sagitariano!? Vou te contar: sou ariana!

VINICIUS: Meu deus hahahahahah.

BIA: Pois é, pois é, as pessoas não acreditam.

VINICIUS: O último que eu chutaria.

BIA: É hahahah as pessoas não chutam nunca que eu sou ariana.

VINICIUS: Eu chutaria sagitário todas as vezes.

BIA: É mesmo? Que coisa! Eu não conheço muito de todos os aspectos de astrologia, mas lendo sobre os arianos eu acho que me identifico um pouco com a teimosia, com ter um foco, ser determinado, sabe. Talvez eu não seja essa ariana toda escandalosa, eu sou tranquila, mas sou bem determinada.

VINICIUS: É, sagitário, como Áries, é fogo, né? Essa coisa da energia…

BIA: Exatamente. E eu tenho essa energia, essa alegria que você identificou também.

VINICIUS: E eu fiquei impressionado com a quantidade de fotos suas sorrindo, aquele sorrisão aberto!

BIA: Ah, eu nem sei fazer cara séria. Até consegui, viu? Eu fiz outro trabalho outro dia, que vou lançar mais pra frente, que como era uma coisa muito colorida no rosto, muita informação, eu tinha que ficar séria. Foi um desafio, mas tô aprendendo. Geralmente to sempre sorrindo, acho que é minha marca.

VINICIUS: Com certeza.

BIA: E acho que por gostar de toda essa energia – você falou das baterias universitárias e tal… -, acho que é por isso que eu entrei nessa onda de ir pra um ambiente bem energético, com um som muito vibrante. As baterias me chamaram muito atenção por causa disso e por ser um coletivo também.

VINICIUS: Essa música do  Me Grava é bem alegre realmente. Você tem contraste? Tem sofrência no seu álbum?

BIA: hahahahah, olha, eu acho engraçado porque eu não acho essa música… ela tem uma alegria muito grande, mas tem uma melodia bem tranquila até, uma música bem saudosa e….

VINICIUS: …então você tem mais a oferecer nesse sentido…

BIA: Eu tenho, tenho muito! No outro álbum que eu lancei, em 2019, fiz um samba autoral e uma proposta de reggae, uma música que chama ‘serei eu’.

VINICIUS: Olha só, você transita bastante…

BIA: É. Mas é um som também bem brasileiro, bem gostoso. E tem músicas bem animadas, tipo assim “(cantando) deixa o groove rolar!”. É um alegre mais animados, essa do me grava foi um alegre bem ‘gostosinho’, caiu ali pra um forró, um xote pra gente dançar, ouvir, apreciar, sorrir mesmo, né?

VINICIUS: E como você chegou até esse Me Grava?

BIA: Como eu cheguei no Me Grava? Olha, durante a pandemia eu tenho apostado em algumas oportunidades. Eu vejo que tem, ah, um curso que você pode se inscrever, daí eu me inscrevia, me inscrevia nos editais. As pessoas que me acompanham no instagram vão me alertando: “Bia, isso é a sua cara!”. Uma dessas pessoas que me acompanham me falou “Bia, olha o que a Salon Line tá fazendo!”, e aí eu olhei o Me Grava, vi que a proposta era gravar um vídeo, e que você poderia ter o seu trabalho gravado pela Salon Line, e não quis perder a oportunidade: já gravei minha música autoral, meu videozinho e coloquei a hashtag, esperançosa, e deu certo. Esse foi o caminho.

VINICIUS: E tá dando resultado na sua visibilidade?

BIA: Na minha visibilidade? Olha, deu uma boa chacoalhada no meu instagram. Tenho alguns seguidores, e o meu instagram, não sei se por conta de algoritmo, tava bem ‘tranquilinho’: eu postava as coisas, a galera comentava, via meus stories, eu não estava com conteúdos muito grandes. Mas esse projeto, quando as pessoas viram, viram que era também uma oportunidade. Quando mostro uma música nova a galera me apoia. Movimentou bastante, muita curtida, povo me parabenizando, me incentivando, recebo muito incentivo pelas redes sociais.

VINICIUS: Você toca instrumentos?

BIA: Eu toco Ukulelê. Eu uso o teclado pra fazer alguns exercícios de canto,  mas não profissionalmente. No Ukulelê eu já tenho um pouco mais de experiência, minha primeira composição foi com o Ukulelê, gravei e já me apresentei com ele. Desde o ano passado eu oficializei mais ele, mas to estudando, vou começar as aulas de Ukulelê em breve.

VINICIUS: Como é o seu processo pra escrever uma música?

BIA: Meu processo? Ai, eu tento me conectar com o que eu estou sentindo, é um processo bem sensível. Acho que a criatividade fala muito da nossa sensibilidade, e quando estou compondo quero falar de algo que está na minha vida, algo que estou verdadeiramente sentindo ou de algo leve.  Se eu quero falar de algo leve: como eu me conecto com isso? Tento analisar como me conecto, que palavra que vem. Geralmente vem a melodia e a letra juntas.

VINICIUS: Surge tudo de uma vez…

BIA: É, vai surgindo, é quase uma… ai, como fala… Catarse? não…

VINICIUS: É um insight, né?

BIA: Exato. É um negócio doido, viu?

VINICIUS: É um negócio doido, melhor definição.

BIA: É doido. Você compõe?

VINICIUS: Componho.

BIA: Ah, imaginei.

VINICIUS:  Eu gostei muito do seu timbre. Apesar de você ser soprano, você não tem aquele timbre característico do soprano, você tem um ‘roncado’ bem legalzinho na voz.

BIA:  Olha, é que eu acho que não descobri ainda essa soprano, sabe? Acho que ainda tô me descobrindo muito, vocalmente. Às vezes quando vou pros agudos eu faço alguns esforços, e aí eu tento me cuidar, me proteger, pra eu ir sem tensão, com muito cuidado. Tento explorar minha voz com muito cuidado, e quanto mais eu vou subindo, mais eu vou me descobrindo. Acho que eu comecei muito no ‘contraltão’, né?

Quando eu estava nas baterias universitárias, Vinicius, a gente não tem muita estrutura de som. Pra cantar com a bateria era um desafio enorme, então eu cantava tensionando muito a base de língua, e fazia uma coisa mais tensionada e mais agravado, pra ter força, projetava bem oral, não usava muito a voz de cabeça, era tudo muito no peito, na raça. Aí eu tive que desconstruir isso, até porque eu me machucava bastante. Fui aprendendo com o tempo.

VINICIUS: Por você ser uma fono que canta, você é mais conservadora por medo de atrapalhar seu trato vocal ou, ao contrário, você sabe onde está pisando e por isso se arrisca mais?

BIA: Olha, eu sou… cuidadosa.

VINICIUS: Cuidadosa?

BIA: É, eu sou cuidadosa. Acho que esse abusar das técnicas tem que ser quando você tem a técnica, e às vezes eu acho que não tenho todas as técnicas ainda, estou aprendendo essas técnicas. Eu abusava antes, quando não conhecia e tentava arrancar de qualquer jeito e acabava me machucando. Depois, quando entendi que eu podia me projetar bem e poderia fazer isso várias vezes sem me machucar, passei a ser mais cuidadosa, até com os hábitos também: aquecimento, alimentação, higiene vocal, estar sempre bem hidratada… isso contribuiu muito pra minha qualidade vocal.

VINICIUS: Eu percebi que a simplicidade foi o que mais chamou a atenção e o que mais encantou no clipe, até mesmo no seu timbre.

BIA: É mesmo?

VINICIUS: Sim, sim.

BIA: Eu tento ser o mais simples possível, sabe, eu acho que também não tenho uma voz muito complexa, não tenho uma sabedoria complexa, tenho muitas limitações, então aproveito o que tenho dentro das limitações e faço o que eu posso, fica simples e tá ótimo.

‘Timbre simples’ eu nunca tinha ouvido falar, mas acho que a simplicidade estar em não exagerar, acho que é isso. Às vezes eu consigo fazer algo pra mais, pra menos, cantar músicas das minhas colegas, por exemplo, mas também não adianta fazer muita firula e não ser eu. Sei lá, eu tento ficar descobrindo: “tá, mas isso sou eu?”.

VINICIUS: E com essa sua leveza toda, o que você vai fazer daqui pra frente?

BIA: Ah, Vinicius, é uma leveza com muita força e muita determinação, para que eu possa seguir fazendo o meu som. Acho que a minha prioridade, na verdade, é ter uma condição favorável de sobreviver, ter uma boa saúde, uma vida afetiva e emocional bem estabelecida e viver a música mesmo.

Eu vivi a música a minha vida inteira, é ela que me motiva. Todo o caminho que eu trilhei, independente das escolhas que eu fiz, a música estava ali comigo, eu encontrava com ela e a gente seguia.

Vinicius, você sabe que agora ta super difícil, né? Eu não faço shows, não monetizo tanto artisticamente, então a fono me segura e dentro da fono tento trabalhar o máximo possível com música. O plano é viver quem eu sou, independente se estiver mais na área da saúde ou da música, de forma que eu consiga dar conta da minha felicidade. Estou caminhando pra fazer mais trabalhos como o que eu fiz na Salon Line, pra ter condições de fazer de outras formas também.

VINICIUS: Você falou “agora tá difícil” referindo-se à pandemia?

BIA: Sim, por causa da pandemia.

VINICIUS:  Você tem 32 anos. A sua idade, emocionalmente falando, está mais pra trás, mais pra frente ou exatamente no mesmo ponto da cronológica?

BIA: A minha idade, emocionalmente falando? Nossa, Vinicius, acho que eu tenho todas as idades hahahah. A minha idade emocional varia muito, porque… que pergunta engraçada…

VINICIUS: É a minha especialidade…

BIA: hahahah

Acho que eu precisei ser adulta muito rápido, acho que sou muito responsável e precisei dar conta de muitas coisas e gostei: me sinto uma mulher muito forte, uma mulher que consegue dar o seu jeito, sabe? Acho que isso faz muito parte da mulher, a mulher dá o seu jeito.

VINICIUS: E ao mesmo tempo você tem um espírito muito jovem, né?

BIA: Exato. Quando eu quero me vestir, quero uma cor, quero um sol… não sei o quanto isso é adolescente também, de uma pessoa que se sente sempre livre e despreocupada. Não me vejo como adolescente, mas gosto das cores e dessas coisas da leveza, e gosto muito de trabalhar com a infância, acho que minha simplicidade também vem disso.

Eu gosto, eu gosto. Tipo Gilberto Gil: ele tem uma simplicidade no jeito de ser, né?

VINICIUS: De compor também, né?

BIA: Exato, e ao mesmo tempo tão complexas as músicas e as coisas que ele tá falando. Eu admiro isso e tento ser simples nas coisas que eu faço, que eu gosto de compor e criar.

VINICIUS: Engraçado, eu sinto bastante o Gil como referência nessa canção ‘amanhecer’… essa volta toda que faz a progressão harmônica é uma volta bem básica, mas que dá conta da história toda.

BIA:  Ah, que legal!

VINICIUS: E foi essa leveza toda que fez a gente ter 35 minutos aqui parecendo que foram 5. Foi ótimo!

BIA: Ah, que massa! Que bom hahahah.

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