Vina Ferreira nos apresenta mais de 50 tons de realidade

Nesta entrevista profunda, Vina revela algumas de suas descobertas ao pesquisar sobre o mundo do BDSM, além das ilusões criadas pela indústria cultural de massa sobre dominadora(e)s e submissa(o)s

Vina Ferreira, secretária executiva e pedagoga. Trabalha como assessora de captação de recursos  no hospital do câncer de Jaú, São Paulo, mas  mora em Barra Bonita.

Vina é uma autora  com grande extensão temática que vai desde o infantil Caixa dos Sonhos – pedido do sobrinho Murilo, passando pela Saga de vampiros Novo Mundo até temas eróticos, como o que dominou nossa conversa, apresentando detalhes de um mundo muito falado, mas pouco conhecido através da duologia Universo Obscuro.

Os livros podem ser adquiridos pelo site da editora hope ou diretamente com a autora, em seu facebook ou instagram.

Vina Ferreira. Foto: Marco Spernega (EDITADA)

VINA: Na verdade, a escrita veio na minha vida num processo muito natural. Eu trabalhava muito e viajava constantemente por conta do trabalho. Eu fazia captação de recurso federal, então eu viajava muito, não parava. Aí de repente mudou a diretoria do hospital, mudou o setor, e eu parei de viajar. E eu me vi todos os dias na minha casa. Não curto muito novela, esse tipo de coisa. Eu falei ‘e agora? que que eu vou fazer?’. Foi então que lembrei de um arquivo de 40 páginas que eu tinha escrito em 2011. Recuperei o arquivo, li e não parei mais. Isso foi em 2015.

Eu escrevi 4 livros da série Novo Mundo num período de dois meses, dois meses e meio… Já lancei três livros e falta o último livro que fecha a série. E nesse tempo da escrita dessa série foram surgindo outras possibilidades: eu participei de algumas antologias, numa delas meu conto foi publicado e recebi muitos recados das pessoas que estavam lendo, dizendo que o conto era muito bom e precisava virar uma história. Entrei num outro mundo e escrevi o livro ‘universo obscuro’, e assim foi, foi surgindo. Depois eu escrevi um outro universo, então eu tenho 3 livros da série ‘Novo Mundo’, que são romances de fantasia, e são romances eróticos, tenho uma duologia que tem uma pegada mais voltada para o BDSM – também são eróticos – e tenho um livro infanto juvenil, porque quando eu comecei a aparecer como escritora nas redes sociais meu sobrinho de 12 anos, na época mais jovem, me cobrou, me disse: “você é escritora, tia, e eu não posso ler seus livros!”, e então eu escrevi um livro infanto-juvenil que se chama Caixa dos Sonhos, e foi por conta dele que eu entrei pela editora hope. Esse é um resumo da minha história, da minha entrada no mundo da escrita.

VINICIUS: Eu li aqui que você trabalha muito com a questão da liberdade da mulher. Seus livros são escritos só pras mulheres?

VINA: Não, não. Na verdade, acho que a Kati [assessora], usou esse termo porque a duologia que engloba toda a história da Laila e do Fernando tem uma pegada BDSM, como eu te falei. E pra poder entender o BDSM – porque quando você fala BDSM as pessoas pensam em ’50 tons’, imediatamente.

VINICIUS : Eu ia até te perguntar isso, desculpa até te cortar. Sobre BDSM, o que é isso?

VINA: BDSM é um estilo de vida que as pessoas optam, que envolve Bondage, Dominação, Submissão e Sadomasoquismo.

VINICIUS: Interessante, e aí entra a questão erótica em todo o enredo.

VINA: Exatamente. Quando você fala BDSM as pessoas automaticamente vão para os 50 tons de cinza, da história do Christian Grey, da Anastasia. E na verdade eu li o livro mais de uma vez inclusive, assisti os três filmes, mas fiquei meio intrigada porque parecia tudo muito mágico, parecia tudo muito perfeito. E eu senti como se fosse uma história de cinderela moderna, porque o cara é muito rico, ele distribui um monte de presentes caros… E aí eu fui buscar o que era o BDSM, pra entender… Por que eu fiz isso? Porque o conto que eu escrevi, universo obscuro – e participou da antologia ‘os 7 pecados capitais’ – ele tem uma história de uma mulher casada que acaba se perdendo um pouco porque descobre esse mundo completamente obscuro, pela internet. Ela entra nesse mundo, acaba se envolvendo com um dominador, mas aí ela acorda, volta pro mundo real e desiste da história. O conto termina dessa forma: com ela simplesmente seguindo a vida dela e deixando aquilo como se fosse só uma história.

Quando as pessoas começaram a me pedir pra escrever o livro Universo Obscuro, eu precisava transformar um conto num livro. Então eu fui estudar o BDSM, fui entender o que era pra poder escrever. Quando você escreve, por mais que você escreva fantasia, tem que ter um fundo de realidade, as pessoas cobram isso do autor. Participei de grupos de whatsapp, de messenger, onde tinham submissas e dominadores, sempre me apresentando como escritora que tava fazendo uma pesquisa. Fui entrando e descobrindo um universo completamente diferente do que aquilo que as pessoas desenham. O BDSM é uma forma de vida que é muito libertadora para as pessoas que fazem parte. A pessoa tem ali a liberdade de ser tudo o que ela quiser, não tem julgamento, não tem preconceito, a pessoa é livre pra viver todas as fantasias, os fetiches que ela carrega, mas muitas vezes em segredo.

Apesar dos homens terem também esse tipo de sensação, terem seus segredos, seus desejos obscuros, as mulheres são maior número nesse meio. A mulher tem uma opressão muito antiga, desde que o mundo é mundo. A gente vê histórias antigas onde a mulher era considerada apenas a esposa do homem, então tudo o que ele queria ela tinha que fazer, não tinha liberdade nem pra viver o seu próprio desejo. O  BDSM sempre fez parte do mundo, porém sempre foi mais escondido, protegido, mais delicado, digamos assim. Nesse momento que a pessoa se liberta, ela entrega todos os seus desejos e sonhos. Foi muito interessante estudar, entrar e participar, ouvir histórias de pessoas que realmente vivem isso no seu dia-a-dia, que faz parte de quem a pessoa é.

Aí eu escrevi o primeiro livro, que foi muito gostoso de escrever e teve uma repercussão muito boa. As pessoas gostaram muito da história e começaram a me pedir para fazer o segundo livro, porque eles tinham que entender como a Laila tinha deixado de ser aquela mulher comum para se tornar essa pessoa especial dentro de um mundo, dentro de um universo obscuro.

Foi também  uma outra aventura: eu me deixei levar, eu me deixei conduzir por um senhor que é dominador – eu sou uma mulher casa, não sou praticante de BDSM – eu entrei, eu permiti que esse senhor entrasse na minha mente pra me conduzir pra escrever a segunda história, e foi muito, muito, legal. O livro tem um erotismo, e um erotismo muito gostoso de ler, porém ele faz uma analogia com o dia-a-dia, com a realidade nossa como ser humano.

Quando você fala de dor e prazer, você fala da vida, porque a vida é isso: viver é uma arte que fica entre a dor e o prazer. Um dia você está feliz, no outro você está triste, um dia você chora, no outro você sorri. A gente é essa dualidade. Ficou muito lindo o segundo livro, ficou fantástico na verdade, uma capa maravilhosa feita pelo meu marido, com todas as orientações desse senhor que se chama Dom Andrew.

Vendi bastante livro e tem um público cativo que conversa muito comigo. Entendo que a história faz parte da realidade de muitas mulheres que não conseguem se libertar, libertar o seu desejo. Quando ela lê, ela se sente livre, e aí eu recebo muitas ligações, muitos recadinhos que me deixam muito feliz. Eu acho que esse é o objetivo de quem escreve: fazer o leitor sentir cada parte da história

“Quando você fala de dor e prazer, você fala da vida, porque a vida é isso: viver é uma arte que fica entre a dor e o prazer.”

VINICIUS : Pelo que eu percebo, tudo o que a gente leva pra Netflix, ou pra qualquer indústria de entretenimento, vai se massificando. A indústria cultural é desse jeito. Então você me parece apresentar uma proposta de realismo pra esse mundo que acabou sendo industrializado, enlatado pelos 50 tons.

VINA: Com certeza. Eu acho que a duologia Universo obscuro/Um outro universo é muito mais real, muito mais verdadeira nesse mundo do BDSM. Não existe toda aquela mágica, todo aquele materialismo que a gente enxerga no livro 50 tons ou nos filmes. Existe sim um poder muito grande, mas é um poder diferente. Não é um poder financeiro, é um poder de dominação, de entrar na mente dos seu submisso ou da sua submissa e levar essa pessoa a se auto-conhecer, levar essa pessoa a descobrir aquelas coisas que ela deixa escondido lá no fundo, porque muitas vezes o mundo não aceita.

Muitas vezes a realidade é cruel, e às vezes a pessoa não vive. Quantas vezes a gente conversa com amigos – eu tenho amigas que falam o tempo todo que ” não tenho ideia do que é ter um orgasmo”. Então, o BDSM vai muito além desse poder material, ele vai num poder de vida mesmo, de alma. É uma coisa muito profunda, e quem vive isso deixa isso muito estampado quando conversa com a gente, que a pessoa se torna uma pessoa mais feliz, mais livre e consegue conviver com a realidade de forma mais suave, enfrentar os próprios problemas internos de forma mais libertadora. É um modo de vida muito bonito, desde que seja levado a sério.

VINICIUS: E há muito preconceito sobre isso, né?

VINA: Pois é, e não só preconceito, mas muita gente bandida também. E no livro Um Outro Universo a ideia era demonstrar o quanto pode ser perigoso você se envolver com uma pessoa que não é real. É muito fácil a pessoa falar ‘eu sou dominador, vem aqui, você vai fazer tudo o que eu quero’, não é assim que funciona. É uma coisa lenta, é um processo de conhecimento, de entrega, em passos pequenos de uma confiança absoluta. Quando se leva a sério é realmente um ponto muito libertador tanto pro homem quanto pra mulher, pois não existem só submissas, existem muitos submissos. Precisa se ter muito cuidado, porque tem muita mentira nesse meio.

Pra você ter uma ideia, quando eu comecei a escrever, um dos grupos que eu fiz parte, lá atrás em 2019, quando escrevi o primeiro livro, tinha onze meninas e três rapazes que se denominavam dominadores, e de repente a gente descobriu que era tudo mentira, que ninguém ali era submissa. Tinham duas meninas que realmente praticavam e os meninos, era tudo uma farsa. Foi muito frustrante, então quando a pessoa opta por isso ela tem que ter muito cuidado pra não se entregar em mãos erradas, pra que não haja sofrimento.

Foto: Divulgação.

VINICIUS : Principalmente pras jovens, porque como a gente está falando de um fetiche, você deve saber que existem as ilusões que o enredo da pornografia cria do sexo fácil. Infelizmente a gente sabe que muitas vezes esse sexo fácil acaba em casos de estupro, de violência, enfim…

VINA: escravidão…

VINICIUS: Sim.

VINA: Precisa ter muito cuidado. Eu acho que o BDSM – eu não sei se eu posso dizer isso – mas a pessoa muito jovem, quando tenta entrar nesse mundo, não está preparada pra ele, tanto que eu conversando com esse dominador – que hoje é meu amigo, é uma pessoa muito querida, meu marido conhece, tenho um apreço muito grande – ele sempre fala que as meninas muito novinhas não tem ideia, então quando assistem um filme como 50 tons de cinza ou Uma Linda Mulher, acham que a vida é isso, acham que é toda essa perfeição. Não que não exista: pode até existir, mas é raro. Concorda comigo que não é todo homem que para na rua pra ter uma relação com uma prostituta que vai levar ela pra um hotel, pagar pra ela ficar no hotel comendo, bebendo e passando aquele período maravilhoso e depois ainda vai se casar com ela?

VINICIUS : Com certeza

VINA: Pode acontecer, mas não é uma coisa que acontece o tempo todo. Precisa ter muito cuidado com as fantasias, porque a realidade existe. Não é que a pessoa vive aquilo 24 horas por dia, a submissa lá de joelhos pro seu dominador, e ele cuidando dela: ela tem uma vida, um trabalho, algumas tem filhos, uma vida normal como qualquer pessoa, porém, naquele momento que ela vai estar com essa pessoa, com esse dominador ou com esse dono, como elas chamam, aquele momento é dela e dele, e o mundo lá fora fica lá fora. Ela vive naquele momento todas as loucuras, todos os desejos obscuros que ela traz dentro dela e não conta pra ninguém, e que ele, como uma pessoa que domina, consegue tirar dela de uma forma que ela realmente sinta prazer.

Nem sempre uma sessão de BDSM tem sexo. Muitas vezes não tem.

VINICIUS: Olha só, isso é interessante.

VINA: É. Muitas vezes não tem, muitas vezes é só um momento que ele está ali e cuida, protege, acaricia, conversa, escuta e depois ela vai pra casa. Por isso que eu te digo: quando é levado a sério é uma coisa muito bonita e muito intensa. Mas até chegar nesse ponto tem toda uma parte de estudo, de conhecimento, de saber aonde você está entrando, saber com quem você está lidando, porque esse lance da confiança tem que ser total, tanto dele pra ela quando dela pra ele.

VINICIUS : É uma vertente bem amadurecida, um lifestyle bem amadurecido, mas ao mesmo tempo muito atrativo, a questão da novidade… Como esses grupos fazem pra filtrar essas pessoas e entender quem está ali de verdade?

VINA: É difícil. Em muitos grupos você percebe que às vezes a pessoa entra e acaba se entregando justamente por não conhecer e não viver isso no dia-a-dia. Ela acaba se deixando levar em algumas situações em que quem está lá, e tem o domínio, já percebe imediatamente.

Eu digo que essas pessoas que se colocam no papel de dominação tem uma mente privilegiada, são pessoas com uma consciência um pouco diferenciada: eles percebem, sentem e sabem como penetrar da alma de uma pessoa, naqueles lugarzinhos que estão escondidos, pra fazer a pessoa se soltar. Por isso que não é pra qualquer um. Não se cria um dominador, eu acho que a pessoa já vem pro mundo com essa consciência diferenciada, e preparado pra fazer esse papel.

“Eu digo que essas pessoas que se colocam no papel de dominação tem uma mente privilegiada, são pessoas com uma consciência um pouco diferenciada. Eles percebem, sentem e sabem como penetrar da alma de uma pessoa.”

VINICIUS: Há muito julgamento em relação às mulheres. Infelizmente o machismo condena muito a mulher até mesmo no sexo comum, quanto mais em uma prática como o BDSM.

VINA: Mas quando uma mulher entra nesse mundo, ele é muito secreto, é muito dela. Geralmente elas ficam no canto delas, no mundo delas e não querem fazer alarde, porque não precisam disso. O que elas precisam é viver que é bom pra elas. Vivem a vida delas e pouco deixam isso sair. Pra poder escrever o livro tive muito trabalho para chegar a elas, pra fazer com que algumas submissas realmente confiassem em mim para me contar, por exemplo, como é um fisting – que é aquela prática onde o homem ou a mulher, quem está no domínio, coloca a mão toda dentro da mulher. Eu olhava para aquilo e aquilo me assustava, porque é fora da minha realidade. Foi muito difícil arrumar uma menina que realmente vivia a submissão e já tinha experimentado isso. Ela me foi apresentada por um amigo que é parte desse mundo. Eu não sei o nome dela, eu não sei onde ela mora, eu não sei absolutamente nada dela. Ela veio conversar comigo pelo messenger num facebook fake e me contou. E quando ela começou a me contar eu percebia no tom de voz dela que ela estava muito feliz. Aquilo era grandioso pra ela. Eu perguntei pra ela: ‘qual é a sensação de uma mulher ao fazer o fisting?’, ela me falou:

” É a sensação de ser tocada por dentro.”

Praticante de fisting

Eu achei isso tão bonito, tanto é que faz parte do livro, usei essa frase dela porque eu achei muito profundo quando ela me disse isso, achei muito forte. Você vê como é a mente humana: pra mim é uma coisa inconcebível, porém pra ela era um momento de glória. Então você não pode julgar, porque as pessoas são diferentes, são seres individuais. A cada um, o importante é que encontre o equilíbrio e seja feliz, só isso.

VINICIUS : Você acabou entrando em um mundo que você nem imaginava.

VINA: Não, não imaginava. Quando eu escrevi o conto lá atrás, pra participar da antologia, pesquisei muito por cima, fui ler uma palavra ou outra pra escrever o conto. Só que quando fui escrever o livro e tinha que transformar o conto em livro, foi um processo de realmente entrar num mundo obscuro – por isso que se chama Universo Obscuro. Demorou, eu tive que convencer algumas pessoas de que eu ia fazer parte do mundo sem intervir na vida de ninguém.

Inclusive tenho uma amiga. Depois que passou a história do livro nós ficamos muito amigas, eu a conheço pessoalmente, ela é casada, tem uma vida, mas tem um dono. Ela tinha um certo receio, pois é uma coisa muito dela. Foram umas três semanas da gente batendo papo, deu falando pra ela ‘você pode confiar em mim’. No começo eu não sabia quem ela era, não tinha ideia de onde morava. Depois que o livro foi publicado ela apareceu no meu facebook e falou ‘eu sou a fulana’. Foi uma surpresa pra mim, e até hoje nem meu marido sabe o nome dela, porque eu acho que tenho obrigação de ser fiel às pessoas que confiaram em mim. Eu carrego isso, vou carregar pro meu túmulo, não vou contar pra ninguém.

VINICIUS: Como essas pessoas descobrem essa vontade?

VINA: É uma coisa muito pessoal, às vezes a pessoa está muito curiosa. Por exemplo, na história a Laila tem uma vida perfeita com o marido, mas tem os segredos dela, e quando começa a descobrir, entrar nos chats, conversar com as pessoas, vai descobrindo que tinha algo dentro dela que nem ela mesma conhecia. Então é muito pessoal. Pode acontecer da pessoa se casar e depois descobrir que o próprio marido tem essa veia da dominação e começar a viver isso. Ou pode ser que até mesmo a pessoa busque isso porque se interessa, descobre que o mundo existe e vai atrás.

VINICIUS : Existe, eu percebo, essa diferença entre práticas pontuais e o estilo de vida mesmo.

VINA: Eu acho que sim, acho que existe a prática pontual da pessoa que tem o desejo, vai lá num clube, numa casa, vive aquele momento e acabou, e tem as pessoas que vivem isso, que tem o dominador que se encontra sempre, que está sempre junto, ou às vezes nem sempre junto, mas uma hora ou outra. É muito pessoal, cada um vai descobrindo e se encontrando diante disso tudo.

Eu entrei nesse mundo única e exclusivamente pra escrever, porque eu queria que meu livro ultrapassasse a fantasia e fosse voltado para uma realidade. Entrei com essa consciência, me deixei levar, me soltei, vivi alguns momentos de criar as cenas na minha mente. Escrevi, fiquei muito feliz com resultado e aí minha vida voltou ao normal.

VINICIUS: Você escreveu um romance com requintes de livro-reportagem. Você fez um trabalho bem forte de entender…

VINA:  Ah, eu estudei bastante…

VINICIUS : Foi o primeiro laboratório que você fez pra escrever um livro?

VINA: Foi, foi o primeiro, porque quando escrevi a série Novo Mundo, acho que – eu falo isso e  as pessoas acham que eu exagero – eu recebi a série e escrevi, e deu certo, porque eu não planejei nada na minha vida, e a série foi o meu primeiro trabalho. Só que quando eu escrevi o primeiro livro, que se chama ‘Eternidade’ – eu não consegui parar, porque os outros personagens que foram criados na eternidade eles ficavam falando comigo o tempo todo, então fui lá e criei mais três livros. Eu criei todos eles – pra você ter uma ideia, ele tem uma média de 500 páginas cada um – e deixei ali guardadinho os outros e fui trabalhar o primeiro, que é o Eternidade. No finzinho de 2015 eu lancei o livro, com uma outra editora, e foi muito legal, a editora me apoiou muito.

Fui pra Buenos Aires, lancei o livro lá, vendi meu livro lá escrito em português, numa terra onde se fala espanhol. Depois, em 2019, escrevi o livro infanto-juvenil pro Murilo, e aí eu tive a oportunidade de conhecer a editora hope, que é a editora que eu estou hoje. Quando eu conheci o trabalho editorial da hope, fiquei apaixonada. O livro ficou lindo! O anterior, Eternidade e Reencontro, era muito simplesinho. Aí falei pra Jéssica, proprietária da editora: “vamo trabalhar os meus outros livros e fazer uma segunda edição?”, e ela topou. Então ‘Eternidade’ foi relançado, com uma capa muito mais bonita, com uma diagramação linda, e depois o Reencontro também foi relançado com uma capa melhor, mais colorida, com uma diagramação maravilhosa, uma nova revisão ortográfica.

Você sabe, fazer livro físico no Brasil é caro, não é fácil. Você tem que criar um orçamento e tirar dinheiro do seu orçamento pra conseguir manter. Não é só a venda do livro que te mantém. É complicado, principalmente pra quem inicia. Eu deixei na amazon, daí quando a gente relançou o ‘Eternidade’ – e eu fiquei apaixonada e teve uma repercussão fantástica – decidi fazer o universo obscuro, então tirei da amazon, passei pra editora e a editora fez todo um trabalho maravilhoso, o livro ficou lindíssimo. No comecinho do ano lancei o segundo livro do universo obscuro, que é Um Outro Universo, que também ficou maravilhoso. E recentemente lancei o terceiro livro da série [novo mundo], que  é O Recomeço.

A série não tem nada a ver com a duologia. É uma história de vampiro. Meus vampiros vivem entre as pessoas, e tem toda uma forma de ter sangue humano sem precisar matar as pessoas. Quando eu escrevi o primeiro livro, fiquei com medo das pessoas me acharem ridícula.

“pensei: ‘as pessoas vão me achar uma boba por estar escrevendo história de vampiro'”

Mas o livro teve uma repercussão maravilhosa. Até hoje eu vendo muito, muitas pessoas me procuram. Recentemente, quando lancei o terceiro livro, muitas pessoas compraram os três de uma vez.

Eu escrevi a série muito rápido. Eu falo que foi uma catarse, acho que já tava na minha mente de alguma forma. Eu acredito na eternidade da vida, então talvez ela já estivesse ali na minha consciência, só esperando o momento certo pra sair, e aí saiu com força total. Agora eu tenho a meta de lançar o quarto livro no ano que vem, que é o mais forte da série, se chama Libertação. Eu já estou trabalhando a capa, já mandei, então provavelmentente no ano que vem eu já fecho a série.

VINICIUS: Você foi do tema vampiros para BDSM. Como você escolhe esses temas?

VINA: Ta aí outra pergunta difícil de responder, porque aconteceu, foi um processo natural pra mim. Escrevi primeiro a história dos vampiros, que foram os quatro livros, mas não lancei os quatro livros, ficaram guardadinhos. Quando escrevi o Universo Obscuro, os livros dos vampiros já estavam prontos, eu só não lancei. O Universo Obscuro veio porque um amigo muito querido veio falar comigo, no messenger, e falou ‘você precisa fazer esse conto virar um livro, porque é o melhor conto da antologia’. Eu acreditei nele e deixei fluir.

O livro infanto-juvenil foi um desafio do meu sobrinho. Ele ficou bravo, fui buscar ele na escola e ele disse:

“Pô, tia, todos os meus amigos falam que as mães deles acompanham você no facebook porque você é escritora, e eu não posso ler seus livros !? Isso não é justo!”

Murilo, sobrinho de Vina

Eu nunca esqueço da carinha dele bravo, e eu disse “não, por isso não, eu vou escrever um livro pra você”. Quando eu escrevi a Caixa dos Sonhos, não tinha a intenção de publicá-la, eu queria escrever a história – tanto que a história tem o nome dele, se chama Murilo -, então eu escrevi uma história meio que de família, sabe, e aí eu tinha intenção de procurar uma gráfica e fazer um livrinho só pra ele, ou umas 30 cópias pra ele dar pros amiguinhos dele da escola, pra poder falar que a tia escreve. Só que nesse tempo saiu um edital público da editora hope, e como eu tinha o manuscrito pronto eu mandei, e a editora me selecionou. Em todos os trabalhos que ela recebeu ela iria selecionar um apenas, e foi o meu. Criou-se a Vina que também escreve pras crianças.

A receptividade das crianças foi muito mágica. Eu vendi muitos livros, fui em muitas escolas. Fiz um trabalho aqui nas escolas de Barra Bonita e igaraçu que foi fantástico. Abriu-se um mundo novo pra mim e eu aceitei.

VINICIUS : Entra a veia de pedagoga, né?

VINA: Isso, acho que é da veia que tá ali, adormecida.

Eu escrevi, recentemete, mais um livro infanto-juvenil, que se chama O Segredo da Biblioteca, e estou participando de um projeto do Proac [ Lei de Incentivo à Cultura do Estado de São Paulo] e esperando pra ver se vai ser aprovado.

VINICIUS: Legal. Você tem fôlego pra mergulhar em uma pesquisa tão forte quanto a do BDSM de novo ou pretende falar mais sobre esse tema?

VINA: Eu estou fazendo isso. Estou escrevendo um livro que se chama Dejavú, que tem a ver com uma história muito bonita de vida do meu pai, mas não quero contar a história de vida do meu pai: quero criar um mundo onde a história do meu pai faça parte. Estou fazendo um trabalho de pesquisa da época do nosso país de 1715, depois 1806, porque vou escrever um livro que tenha várias vidas, pelo menos três vidas, pra que eu possa demonstrar o que é um Dejavú ali na escrita, pra que quando a pessoa estiver lendo ela sinta: “puts, isso aqui já aconteceu lá em 1715, e agora está vivendo novamente de uma forma diferente” ,”puts, isso já aconteceu em 1806 e agora, em 2020, ta acontecendo de uma forma diferente”. Estou trabalhando nisso, é um livro que está tomando bastante da minha energia.

Escrevo muito durante a noite, porque trabalho o dia todo, e quando estou numa fase de muito trabalho nem escrevo, pois chego em casa muito cansada. É um livro que está tomando bastante do meu tempo, porque pra fazer esse interligação com as histórias preciso realmente entender alguns processos para que possa concretizar em palavras. Pensar é uma coisa, jogar em palavras, num texto, para uma pessoa que você não conhece, que vai ler aquilo e precisa entender o que você quer dizer, aí é outra história, é um pouquinho trabalhoso.

VINICIUS : Você falou de escrever à noite por conta do trabalho. Como é voltar pro trabalho depois dessa imersão nesses temas?

VINA: Eu levo numa boa, sabia?

VINICIUS: É?

VINA: Eu sou uma pessoa muito dinâmica, sabia? Eu sou Ariana, então você já viu, né? A mente não para. E eu sou uma mulher de 55 anos, já tenho algumas experiências de vida, já vivi algumas situações que, de certa forma, me dão base pra seguir o caminho que eu escolhi.

VINICIUS : Com certeza.

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