Amostras no microscópio

“O que é cultura?”, perguntam frequentemente. Pergunta pertinente, sem a qual é impossível sequer pensar no alívio da angústia que é viver em plena pandemia da doença de existir.

Cultura não existe sem sociedade. Mas o que é sociedade? Basicamente, um conjunto de indivíduos. Pense em vários pontinhos dentro de um círculo. Cada pontinho representa um indivíduo, a essa colônia de bactérias pensantes damos o nome de sociedade.

Mas não basta. Sociedade assim, parada? Nem pensar! Cada um desses pontinhos tem visões diferentes sobre como esse cercadinho deve funcionar, sobre como caminhar dentro desse cercadinho. Por isso, não são meros pontos, mas são pontos em movimento. Há uma seta vetorial em cada um desses pontos, por onde os seres se movem. A sociedade, assim, torna-se política, ou, em outras palavras, a política é a sociedade em movimento.

A rota de colisão é notável… sempre haverão vetores em direções contrárias, prontos para o choque. Daí que o discurso de ‘união’ na política sempre serve e sempre serviu para fins de dominação. O que se deseja, no fundo, é sempre silenciar a posição do outro, absorvendo-o como lama na ideologia dominante.

Seja em casa, na escola, no trabalho ou no parlamento, estamos sempre nos questionando sobre como o mundo deveria ser, e comparando esse ideal com nossa percepção de como ele de fato é. Reacionários querem retornar ao passado, conservadores querem manter o que já está posto, progressistas querem avançar… todos nós vetorizamos o mundo, em qualquer dimensão que seja. Mesmo sem nenhuma grande formação escolar, qualquer ser humano tem em si a inquieta criticidade que o faz olhar pro mundo e, por mais que evite ou esconda, sentir sobre ele. A política tem raiz nos 5 sentidos.

“Não sou político”, “temos que ser a-políticos”, dizem os demagogos. A intenção é óbvia: transformar homens em pedras. Tudo é política, porque desde que nos tornamos conscientes estamos em movimento, seja este físico ou mental. O maior ganho, neste sentido, está em abraçar a humildade de se enxergar como participante do jogo, e não como semideus acima dele.

Esse movimento não ocorre senão no tempo, e o tempo é primo-irmão da memória. Não são apenas pontinhos em movimento: são pontinhos em movimento que deixam rastros. A sociedade política torna-se, também, histórica. Não existimos sem a realidade histórica, isso é fato. Entender a historicidade é central para resolver os principais problemas políticos da atualidade (veja, a exemplo, a ignorância de quem não vê justiça na política de cotas para negros e descendentes de nativos).

A história é feita de retornos infindos, já apontava Nietzsche. Os rastros, nesse sentido, vão sendo reforçados, redesenhados, realocados, tornando-se mais do que simples rastros: tornam-se caminhos.

Eis o conceito: Cultura é o caminho que o ser político-social percorre em sua historicidade.

Revisitamos os caminhos da cultura ao longo de toda a vida, mesmo sem percebermos. Esses caminhos estão impregnados até mesmo em nossos corpos, como bem aponta Marcel Mauss. Somos caminhantes e caminho, tudo ao mesmo tempo. Memória, afetividade, temporalidade, sensibilidade, convicções… todos os fatores que nos fazem humanos são instrumentos tanto de criação quanto de absorção de cultura.

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