CPI fez cloroquina voltar à pauta dos desinformadores

A tendência de retorno da cloroquina é curiosa. Parecia que a ivermectina tinha chegado pra ficar, dominando as fakenews desde as mais bem elaboradas até as mais caras de pau. Mas após o início dos trabalhos da CPI Covid, tudo muda. Coincidência?

O trabalho de desinformação tem se mostrado basilar para que o presidente se sustente no poder. Não no poder burocrático, é claro, mas no poder que vêm do apoio popular. O gabinete do ódio assina, retornando cloroquina ao centro, a carta de confissão dos crimes de Bolsonaro relacionados ao medicamento.

Não basta, porém, analisar sob a ótica da improbidade, pela qual há estoque do fármaco suficiente para 18 anos, que vencerá em apenas 2, gerando desperdício colossal de dinheiro público. Não basta olharmos para a ordem de que o exército produzisse além da conta. É preciso especular sobre raízes mais profundas da insistência no ‘tratamento precoce’.

A ideologia, por mais que seja fator decisivo, também não é de todo adequada para esta compreensão. Sabemos que lançar iscas sangrentas, cultivar a fábula do inimigo invisível e onipresente e desenvolver uma realidade paralela confluem para que o terraplanismo medicinal se amplie.

Porém, assim como o voto impresso, há uma dupla retórica aqui envolvida: a do fechamento hermético do grupo político e a da destruição das bases consolidadas da civilização. A primeira é de âmbito interno, e visível também nas religiões: o sentimento de pertencimento a um grupo, baseado no instinto de proteção, pede a criação de signos ideológicos muito específicos, estranhos ou até repudiáveis ao externo.

Do outro lado, enquanto fortalece seu interior, o neofacismo projeta a ruína do exterior, fazendo crescer a cultura do ódio do grupo ao externo. É um movimento, assim, de dentro pra fora. Nasce da sensação de pertencimento, que cria presas afiadas para destruir tudo o que ameaça essa sensação. Enquanto isso ciência, educação, saúde… tudo vai sendo ideologizado e dominado.

Porém, apesar desta relativamente longa análise, penso que o objetivo específico do culto cloroquínico está não aí: há que se investigar motivações financeiras, no seio da família bolsonaro, para o agarrar feroz a um produto específico. Sem dúvida que a CPI deverá, mais cedo ou mais tarde, firmar os olhos nesta dimensão.

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