‘nem no próprio lar há segurança na vida de algumas mulheres’

Escritora Luiza Freire de Menezes, escritora, autora do Livro ‘Eu sinto muito’

23-07-2020 20:00

Luiza Freire de Menezes, 16 anos, escritora, autora do livro “Eu sinto muito”, que aborda a questão da violência doméstica , bem como os traumas que a mesma pode gerar.

Como esse livro surgiu?


Luiza: Bem, eu precisava de uma ideia nova porque queria participar de um concurso, então eu comecei a folhear alguns textos avulsos meus em busca de inspiração e encontrei um em que uma garotinha se escondia em um armário, com medo de um homem. A história me tocou e senti que precisava falar sobre isso.

E então surgiu a ideia desse livro… como foi o processo de escrita de um tema tão dificil ? É dificil, pra você,  escrever sobre esse tipo de assunto?

Luiza: Foi muito difícil para mim, com certeza! É um tópico fora da minha realidade e extremamente delicado, eu não queria deixar ninguém desconfortável, tive que pesquisar muito, entender realmente como funciona e algumas cenas foram muito difíceis para mim na hora de escrever.

Você disse que é um tópico fora da sua realidade… não foi, então, um livro baseado em algum fato da sua vida ou da vida de próximos, é isso?

Luiza: Não conheço ninguém que tenha passado por isso, mas na realidade, acho que ninguém nunca me contou que passou, sabe? O assunto é tão delicado, as pessoas colocam tanto para “debaixo do tapete” que senti a necessidade de trazer à tona, entender e mostrar para as pessoas que é real, muito real mesmo.

E daí surgiu a necessidade de pesquisar sobre o assunto… o que você descobriu nessas pesquisas?

Luiza: Eu entendi que acontecia com uma frequência absurda, é como um câncer que não demonstra sintomas! Eu vi vários artigos, documentários, assisti filmes e séries para entender como retratavam ao público, foi uma pesquisa vasta porque eu realmente não queria fazer feio. Acabei pesquisado sobre relacionamentos abusivos, assédio e agressão no geral e até então, não sabia o quão comuns são esses crimes.

Tudo isso mudou sua visão sobre a posição da mulher na sociedade? Ou você já percebia os reflexos do patriarcado?

Luiza: Completamente! Eu sempre vi a mulher como alguém que consegue fazer qualquer coisa em qualquer tempo, mas que infelizmente precisa ralar o triplo. Foi assustador descobrir que nem no próprio lar há segurança na vida de algumas mulheres, e é mais revoltante como a sociedade machista prefere fechar os olhos para isso.

E você, uma escritora, mulher, jovem, sentiu preconceitos na hora de publicar?

Luiza: Eu senti mais pela idade, quando eu digo que tenho 16 e escrevi um livro sobre violência doméstica, algumas pessoas não me dão tanta credibilidade. Mas eu vi o real poder da literatura quando me deparei com pessoas que não acreditavam nem na existência desses problemas, e algumas até disseram que era drama meu, e, ao lerem, abriram os olhos. É gratificante ver que o meu objetivo foi cumprido.

Era justamente nesse vértice de preconceitos que eu queria chegar… Você sente, então, a tentativa de descredibilizar um trabalho, quando este é feito por alguém mais jovem? Por que isso acontece?

Luiza: Ah, com certeza! É uma coisa que tive que me acostumar, pode perguntar para qualquer autor jovem por aí, a nossa idade é a primeira coisa que faz as pessoas arregalarem os olhos, eu já tenho até as frases mais comuns gravadas na cabeça. Acredito que seja porque a escrita é tão desvalorizada, a literatura, todas as artes na verdade, são tão desvalorizadas no nosso país que, se um adulto já “não tem futuro” que dirá uma criança, um adolescente.

O preconceito com idade é pouco falado… da pra quebrá-lo? Como fazer isso?

Luiza: Sim! É só uma chance para a gente! Já vi vários autores – eu incluída- que perderam parcerias e outras oportunidades por causa da idade. Somos tão autores quanto qualquer outro autor! Obviamente temos menos experiência, mas quantos autores adultos não começam na escrita aos 30… 40 anos? De algum lugar precisamos começar e ver gente começando cedo devia ser um estímulo para a nossa literatura, não o contrário.

Ótimo. Voltando ao livro: há uma construção que envolve traumas do passado… Como você trabalha essa construção de linha do tempo, em que a personagem do presente precisa ter traços resultantes de ocorrências passadas?

Luiza: Esse foi um tópico muito delicado. Eu não queria dar bandeira, mas tinha que colocar pistas sobre o que aconteceu – em detalhes – com a protagonista. A Cora tem uma família incrível, amigos sensacionais e um teto estável, mas as memórias do passado influenciam em praticamente tudo que ela faz, a sensação de que ela é culpada pelas mínimas coisas e a falta de confiança em si mesma, como se ela fosse incapaz de qualquer coisa, tudo causado pelos traumas na infância, e ainda carregado com as “vozes” que ela ouve do pai dela, o agressor, dizendo que ela não consegue.

Interessante você mencionar essas conversas… que tipo de violências te foram relatadas?

Luiza: Não posso dar detalhes, acho pessoal demais, mas em todos os casos que ouvi pude perceber o abuso, a ideia de superioridade em cima da mulher – novamente o patriarcado e sua influência. O homem justifica – claro que, pode acontecer o inverso também, a figura masculina não é um monstro, são casos e casos e meu foco foi a mulher como vítima – as agressões com motivos que para nós parecem ridículos, mas o abuso e a manipulação é tão grande que a vítima acredita que mereceu, ou que ele pode mudar.

é comum a mulher se sentir culpada pela agressão?

Luiza: Muito, infelizmente. No meu livro, eu retrato a culpa que a protagonista carrega sob si mesma, apesar de ela não ter sido a vítima, era uma criança envolvida naquela situação hedionda e o agressor a fez acreditar que ela era a responsável pelas agressões.

Uma habilidade, portanto,  do agressor, de manipular emocionalmente a vítima… como é possível essa habilidade de manipulação?

Luiza: O mais comum, pelo que estudei, li e ouvi, é a construção de uma imagem. São poucos os casos em que o homem começa agressivo, geralmente eles ganham a confiança a partir de uma imagem dócil e, aos poucos e sutilmente, ditam o que ela deve vestir, se ela pode ou não sair, fazem jogos psicológicos e dizem estar mal por algo que ela fez – sendo que a culpa era dele – em discussões. A vítima acaba perdendo toda a sua liberdade e molda sua opinião na dele, até que, então, os atos violentos começam e ela não vê escapatória.

É algo gradual então… como perceber antes que seja tarde demais?

Luiza: É muito difícil responder, os sinais são muito sutis, mas aos poucos ele vai tentar impor uma opinião nas mínimas coisas, falar da aparência… “sugerir” outras roupas, contornar a situação em brigas e fazê-la se sentir culpada por algo que ela nem entende, ele vai fazer com que ela pare de sair com amigos, de fazer coisas que ela gosta, hobby’s… etc. Aos poucos, ela vai esquecer a própria opinião e pensar “mas e se ele não gostar dessa roupa?”, como se a opinião dele fosse mais importante.

Há, nessa linha, um ponto onde  violência e machismo se encontram?

Luiza: Não tenho dúvida de que sim, o machismo acoberta os casos, e até justifica. A ideia de que “o homem sabe mais” impulsiona os casos, e mesmo quando é o contrário e o homem é a vítima, o machismo também se faz presente, porque ele não quer falar para os outros que está sendo agredido por uma mulher, em tese, mais fraca que ele.

Diante de tudo isso, após pesquisas, escrita do livro e conversas sobre o assunto, você se sente impelida a ajudar essas vítimas de alguma forma?

Luiza: Quando eu acabei a pesquisa, me senti uma inútil. A impotência me pegou em cheio, eu me senti tão mal que chorei até não poder mais… mas acredito no poder da literatura, acredito que as minhas mulheres, as minhas personagens – porque Eu sinto muito não será o único a falar sobre isso – vão trazer essa mensagem por mim, alcançar mais pessoas, mais vítimas, fazê-las entender que isso não é normal, que não há justificativa e que elas podem pedir ajuda.

Este então, será um tema recorrente em seus próximos livros?

Luiza: Sim! No meu próximo livro, que inclusive será spinn off de eu sinto muito, trarei uma personagem que passa por um relacionamento abusivo durante o livro. Dessa vez quero mostrar o que uma vítima sente, Cora era uma testemunha, a real vítima foi sua mãe.

Interessante… Teremos uma nova perspectiva sobre o mesmo assunto… É uma característica sua, enquanto escritora, remexer na mesma história, com spinn off’s, por exemplo?

Luiza: Quando fiz o livro, eu esperava ser livro único. A história do spinn off, que será focado nos irmãos mais novos da protagonista, veio depois. Basicamente, eu vou até onde a história me levar, mas tenho preferência por livros únicos.

E do outro lado: quais leituras te influenciam?


Luiza: Minha primeira “pesquisa” foi no meu livro favorito: O problema do para sempre. Eu me inspirei na protagonista para criar a minha Cora, outros livros que me influenciaram foram as obras da Coho, não pelo enredo em si, mas pela escrita simples dela que carrega muito sentimento, e Eleonor e Park, que também fala sobre violência doméstica.

Existem, além da escrita, outras formas de produção artística em que você pretende adentrar?

Luiza: As vezes eu faço esboços de personagens, não sei desenhar direito, mas é terapêutico. Meu foco mesmo é a escrita, mas sou muito envolvida com música também.

Há quanto tempo você escreve?

Luiza: Desde os dez, onze anos

Mas nunca textos maiores como o de seu novo livro?

Luiza: Ja escrevi alguns livros, inclusive um até maior que eu sinto muito, mas nunca tive coragem de publicar, mas Tenho vontade de reescrevê-los,

Interessante… Há então, uma experiência consideravelmente grande na escrita, que culminou em ‘eu sinto muito’. Os outros livros escritos por você são do mesmo estilo desse?

Luiza: A maioria é romance, na época eu gostava muito de tratar de temas psicológicos, depressão, ansiedade, etc, envolvendo o mundo adolescente. Tenho várias ideias – uma inclusive de ficção científica. Eu sempre tento usar minhas histórias como um meio de passar uma mensagem.

Sempre tratando do universo adolescente?

Luiza: Geralmente sim, mas ando me aventurando o mundo “young adult” e também em histórias com personagens mais velhos.

Então a idade é um fato importante na construção de seus personagens?

Luiza: Eu sou uma pessoa muito meticulosa na hora de escrever, não gosto de trazer inverdades ou informações de qualquer jeito, por isso eu escolhi histórias com idades próximas a minha, assim eu consigo me identificar, trazer verossimilhança e fazer os leitores se identificarem também. Provavelmente, quando eu ficar mais velha, terei histórias de outras idades e outras vivências também.

Diante disso, então, podemos esperar muita verdade na relação entre idade e personalidade das personagens. 
Você comentou que ja escreveu também sobre depressão e ansiedade …. seu atual livro é sobre violência doméstica… Há uma tendência em falar sobre problemas psicológicos/sociais? Que outros temas, nessa linha, lhe geram interesse?


Luiza: Sim! Os temas psicológicos de depressão, ansiedade e outros são bem comuns na minha realidade, até porque sou do ensino médio e a pressão dos vestibulares não é nada confortável. Mas gosto de trazer temas diferentes envolvendo a mente humana a fim de falar sobre problemas sociais, são assuntos que sinto que falta espaço para debate.

Perfeito. Tem mais alguma coisa que gostaria de falar?

Luiza: Eu quero passar uma mensagem para as pessoas que sofrem pelo que a Cora e a mãe dela passaram:

Você não está sozinha, você não está errada, se você não se sente bem, ele ou ela não te faz feliz. A sensação de estar preso ou presa é apenas uma sensação, peça ajuda, fale com os amigos, com a família, não há vergonha alguma nisso. Denuncie.

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