‘Esse governo é uma desgraça’

com a Diretora e Roteirista de TV e Cinema Flávia Orlando

27-07-2020 21:30

Flávia é carioca, diretora e roteirista de TV e Cinema há 20 anos. Assinou roteiros para programas de TVs abertas e canais pagos, filmes de ficção e documentários exibidos em circuito nacional e em festivais internacionais, como o de Berlim e de Lisboa. “Lusófanas”, “Sonhos e Desejos” e “Meu Querido Embaixador” são algumas de suas obras para o cinema.

Atualmente, Flávia ministra uma oficina de filmes de baixo orçamento. Os detalhes e inscrições podem ser obtidos em www.sympla.com.br/oficinaderoteirobaixoorcamento

Na TV assinou os roteiros de “O que vi da vida”, quadro do Fantástico, “Criança Esperança”, “Estrelas”, “É de casa”, na TV Globo, “Superbonita”, no GNT, além de três longas-metragens que rodaram o mundo, muitas séries para canais a cabo e documentários e curtas-metragens autorais.

Começo essa entrevista já adentrando nas suas motivações mais incisivas para a vida profissional: Por que diretora e roteirista? Onde, quando e como surge essa vontade no universo de Flávia?

Flávia: Comecei minha vida profissional em uma multinacional de consultoria, a Andersen Consulting. Eu sou formada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal Fluminense. Pois é, a coisa toda perdeu a graça logo e eu comecei a me perguntar o que faria da vida. Foi quando vi, na Revista Programa, o anúncio de um curso de assistente de direção na Fundição Progresso. O professor era o Walter Lima Jr., diretor de “Inocência”, um filme muito bonito.

Corri pra me matricular e, chegando lá, fui persuadida, não me lembro por quem, a fazer o curso de assistente de produção com o Emiliano Ribeiro. Felizmente eu aceitei, pois o querido Emiliano me indicou para uma vaga como assistente do Barretão na LC Barreto, maior produtora de cinema do Brasil. O Barretão não queria ninguém com aspirações artísticas, precisava de ajuda no escritório e, como eu tinha um diploma de Economia, e não de Cinema, ele me escolheu. Claro que eu tinha aspirações artísticas, mas não falei nada. Foi assim.

E claro, essas aspirações não sossegaram… Essa tensão que existiu no inicio influenciou no seu modo de fazer roteiro?

Flávia: Mais uma ansiedade do que uma tensão. Sim, eu sou uma roteirista muito rápida, considerando prazos e cenas. Não enrolo pra entregar uma encomenda. E também gosto de cenas curtas. Começo a cena o mais tarde possível e termino o mais cedo possível também.

Interessante esse gosto por cenas curtas… O que isso provoca no espectador?

Flávia: A sensação de ritmo, de progressão do filme.

É seu principal diferencial? Ou têm outros?

Flávia: O meu principal diferencial é guiar o olhar do leitor do meu roteiro com a sensação de que ele está, efetivamente, assistindo a um filme. Como eu tenho bastante experiência na ilha de edição, sou muito precisa na construção das minhas cenas.

E assisto a muitos filmes também. Isso faz bastante diferença, o referencial.

Que tipos de filme você assiste?

Flávia: Todos. Mas de uns tempos pra cá, muitas séries, como todo mundo. Também revisto meus cineastas favoritos, como a Agnès Varda e o John Cassavetes. Gosto de cineastas que interpretam o mundo de uma maneira muito particular, como ele e a Miranda July. São cineastas autores, que levam o trabalho pra casa e vice-versa.

E você, também leva o trabalho pra casa e vice-versa?

Flávia: Sim! Sempre! O tempo todo.

Aliás, uma pergunta que você deve ouvir o tempo todo: qual sua definição pessoal de roteiro?

Flávia: Roteiro é o mapa do filme, com todos os seus elementos audiovisuais.

Maravilha. E como anda o cenário audiovisual no Brasil?

Flávia: Retomando seu espaço. Há aliados do audiovisual brasileiro lutando por ele no Congresso Nacional. Daremos a volta por cima, como já fizemos tantas vezes. E agora temos o streaming, né? Temos que produzir conteúdo. Conteúdo excelente. Para isso, tem que estudar!

E falando em estudar, temos a oficina de filmes de baixo orçamento… De onde veio essa ambição de dar voz a, como você mesma fala em um vídeo recente, ‘cinema de guerrilha, independente, periférico, de garagem, cinema na contramão da indústria’?

Flávia: Dos excelentes trabalhos dos meus alunos e da vontade de vê-los realizados. Muita gente boa, talentosa, que tem dificuldade em entrar no mercado. Quero contribuir com essa democratização. Precisamos de novas vozes, gente preta, gente da periferia, e do interior do país também. Precisa acabar essa ideia de ter que morar em SP ou no Rio pra fazer filme. Cadê o norte? Cadê o interior de Minas? Não tem criador por lá?

As desigualdades étnicas e regionais são apontadas com cada vez mais frequência em entrevistas das mais diversas pessoas… Recentemente o Ministério da Cultura foi extinto, levando à discussão do papel do estado nas políticas de democratização de produção cultural… Como você vê a participação do governo pra sanar essas desigualdades? Podemos contar com ele ou o futuro do audiovisual virá de outros meios?

Flávia: Com ESTE governo não, né? Nunca. Esse governo é uma desgraça. Mas a cultura nunca foi muito respeitada, não. Parece que a gente está sempre pedindo esmola, sabe? Mas aqui não tem jeito. A cultura precisa do governo mesmo. Somos um país pobre. A cultura não se sustenta sozinha, é impossível. Mesmo que consigamos filmar, temos que distribuir, as pessoas têm que ter acesso. E, outra coisa, audiovisual é profissão. As pessoas têm que ser pagas pelo trabalho. Um cachê digno, que pague as contas. Flávia: Temos grandes histórias, gente linda e inteligente, a música mais bonita do mundo. Grandes técnicos, gente muito boa!

Outra fala sua que me chama bastante atenção é ‘o encantamento de milhões de espectadores começa ali, no roteiro’… Encantamento… Qual a importância dessa palavra no seu léxico e no léxico do audiovisual?

Flávia: A existência passa pelo encantamento. Nas mínimas coisas. Sem o encantamento a gente apenas sobrevive. Encantamento com a arte, com o outro, com o comer, o beber. Eu vejo o cotidiano como uma manifestação do encantamento o tempo todo. Quando acontece de eu não conseguir enxergar esse encantamento, fico muito pra baixo. Mas isso é raro.

E quando não acontece o roteiro se perde? Ou dá pra recuperá-lo? Em outras palavras, você é uma artista que aperfeiçoa o que não sai bom ou descarta e tenta algo novo?

Flávia: Olha, nos últimos tempos eu não começo nada que não me diga à alma. Às vezes pego um trabalho que, a princípio, não tem nada a ver comigo. Mas aí espero, aguardo uns dias, sem ansiedade e me conecto com o trabalho, me encontro com ele. E me vejo no roteiro.

Você é uma pessoa ansiosa?

Flávia: Muito. Mas estou trabalhando isso. Medito, entendo o tempo das coisas

Tempo: eis uma variável comum tanto à ansiedade quanto ao cinema… Que outras tempestades internas suas afetam seu trabalho?

Flávia: A maldade humana me afeta demais, sabe? Eu me choco muito com o ser humano. A arte é pra isso, pra blindar a gente, e eu me protejo mesmo.

É interessante notar o elo que liga o emocional do artista à ‘mão na massa’ de seu trabalho… Você é otimista com o futuro da humanidade?

Flávia: Essa é a pergunta da vez, né? Hoje eu postei uma foto minha com minha gata e o seguinte texto:

“Ganhei Belinha há 4 anos, no Dia das Mães. Desde então, essa é a nossa rotina. Eu sento pra escrever e ela vem. A gente conversa, eu digo que o mundo é ruim e ela me explica que não. Que, na verdade, já foi muito pior. E me pede pra ter esperança”

Eu fico muito feliz quando vejo pessoas públicas dando voz à causa animal, quando percebo o branco ouvindo com atenção o preto, as pessoas assumindo sua sexualidade, mas só ficarei otimista quando o que é inadmissível se tornar proibido. E só é proibido aquilo que é lei.

Ao mesmo tempo, vejo o povo brasileiro, formado em sua maioria por gente mestiça e racista. Classe média que leva na cabeça e se acha rica. Aí eu perco o otimismo completamente. Porque isso é a base desse atraso que a gente vive, né? A origem tá aí.

Você que trabalha no meio audiovisual, acredita que a mídia trabalha em prol do ‘assassinato’ da consciência de classe, colaborando pra criar o que frequentemente vem sendo chamado de ‘pobre de direita’?

Flávia: Eu não sei… Eu acho que o ser humano tem tudo para fazer um julgamento de bem e mal. Pra mim, existe o bem e existe o mal. Existe o lado certo e o lado torto. E o lado certo é aquele que abraça o desprivilegiado, o vulnerável, o fragilizado. Não concebo qualquer “bem” que bata de frente com esse posicionamento. Essa falta de consciência de classe vem de uma estrutura equivocada de país.

Hoje tem influenciador digital, de opinião, que fala do Brasil como se estivesse falando de um país rico… O Brasil é pobre, minha gente. É feito de milhões de pobres. Como é que pode essa população ser tratada como mão de obra barata? Como pode um país negar dignidade e cidadania ao seu próprio povo? A sua própria cor? Ao chegar aqui com a Missão Artística Francesa, Jean Baptiste Debret observou isso. Quem trabalhava era o preto, o escravo.

Não estou dizendo que não tem que trabalhar, mas tem que ganhar direito, tem que ter saúde de primeira, educação de primeira, tem que ser tratado como cidadão. Como é que pode um garoto de 14 anos estar em casa e levar uma bala pelas costas? Isso causou uma comoção moderada…  Existe realmente, e é horrível essa constatação, a ideia de que determinadas vidas valem mais que outras. Não sei se isso é culpa da mídia, não. Vejo mais como uma subserviência de uma classe média branca a um poder político abstrato, uma subserviência incompreensível e a um medo terrível de ser comparado ao pobre. Mal sabe ela que o que a separa do pobre é uma ilusão de riqueza.

Todas essas confusões, problemas, injustiças… O cinema e a TV podem ajudar a mudar cenários tão graves quanto esse?

Flávia: Sim, claro que podem. O audiovisual é a forma mais eficaz de storytelling. Com os filmes aprendemos mais sobre amor, justiça, beleza, vilania… Usamos um sistema de imagens para reproduzir comportamentos sociais. Para compreender melhor o mundo.

E convenhamos, compreensão do mundo falta-nos muito atualmente, enquanto sociedade. E aí surge um projeto que vai à situação do baixo orçamento, que toca de maneira muito próxima esses problemas… Até que ponto uma produção de baixo orçamento consegue ser tão bem sucedida quanto uma de alto orçamento?

Flávia: Consegue. Tem que cair no gosto do público, ou pelo menos de um público formador de opinião para poder circular. O público tá se lixando pra quanto custou o filme, já vi filmes caríssimos serem um enorme fracasso e filmes com recursos limitados alcançarem um público que não se esperava. Os filmes de Domingos de Oliveira eram adoráveis. Tinham um público pequeno, mas tinham. O Julio Bressabe também tem seu público.

Eu acho que o “ser bem sucedido” é sempre relativo.

Sem dúvida. Tem algo sobre o qual você ainda não escreveu e tem vontade de escrever?

Flávia: Muitas coisas. Nem comecei ainda.

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