‘80% dos portadores de COVID não vão manifestar os sintomas clássicos’

Dra Nicolle Queiroz

Cardiologista, médica clínica membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein e do Hospital São Luiz

Coordenadora do grupo Dr. Vida/smartsaude

Atua na UTI Covid dos hospitais São Camilo e São Luiz

O  IBGE constatou, em maio, que cerca de 4,2 milhões de brasileiros apresentaram dois ou mais sintomas de COVID-19 simultaneamente. O que isso representa no cenário da subnotificação de COVID-19? Diante desse dado, em conjunto com o dado da Universidade John Hopkins, que apontava um numero real de casos para o Brasil de cerca de 9 vezes o notificado, qual percentual de subnotificação podemos estimar?

Bom, quando a gente fala de subnotificação, fica totalmente inviável a gente fazer o perccentual de como e quando isso ocorre…  como é que eu vou estimar uma coisa que não é feita, certo? Então a gente já parte do pressuposto de que 80% dos portadores de COVID não vão manifestar os sintomas clássicos, que são: febre, falta de ar, dor no corpo… vamos lembrar que as doenças diarréicas, os quadros de diarreira, são apenas em 10% de quem apresenta sintomas.. em 20% do que apresenta sintomas o impacto é muito pequeno, 10% , só, vai ter um ou outro sintoma atípico. Fica muito difícil a gente mensurar, sendo que a gente não sabe de fato quem tá de fato notificando e quem não tá.., eu não tenho esse número, essa porcentagem  neste momento.

15,3 milhões de brasileiros declararam ter tido algum sintoma relacionado a síndrome gripal. O quão as gripes e resfriados, de um modo geral, estão atrapalhando a visualização do real cenário da COVID-19?

A gente falou os sintomas clássicos,que são de gripe, tanto pra um rinovírus, um adenovírus, ou até, no tocante mais grave que é H1N1: é febre, tosse e mal-estar.. então fica muito complicado você fazer o discernimento entre uma clínica e outra. O que nos ajuda, o que nos direciona é: sorologia, PCR, teste rápido e o exame de imagem, onde o COVID tem  acometimentos pulmonares mais específicos, mas isso a gente fala quando a pessoa tem o sintoma respiratório, lembrando que em 80% das vezes a pessoa não tem sintoma algum. Então de fato atrapalha, e atrapalha muito. O que nos ajuda são os outros detalhes como perda de paladar, perda do cheiro, aquele mal-estar intenso que a gente vai conseguindo diagnosticar conforme a avaliação médica bem justa. Não dá pra gente fazer uma avaliação rápida no pronto-socorro e ter em 5 minutos a certeza absoluta que é ou não é COVID, é inviável.

O sintoma mais relatado nas pesquisas foi o de perda de cheiro ou sabor… é possível que haja uma manifestação psicológica desse sintoma, diante da repercusão que ele foi alvo nos ultimos meses?

É claro que o impacto psicológico é grande. Eu mesma vi um monte de casos que a gente tinha uma falta de ar, você ia fazer todos os exames: gasometria, tomografia de tórax, PCR pra COVID, exame físico… [ os exames não constatavam] absolutamente nada. E em alguns momentos no meu  ambulatório eu pedia retorno pra reavaliar esse paciente porque eu sei que a doença evolui conforme os dias. Entre o 7º e o 10º dia são os piores dias, os dias que a gente sabe que pode piorar a doença, e eu reavalio o paciente sistematicamente e não tem nada, e muitas vezes a maioria identifica que é ansiedade. É claro que tem impacto, é claro que dá medo, é uma doença que a gente não conhece, onde não  tem tratamento e não tem vacina.

A maior parte dos que relataram esses sintomas conjugados são mulheres. Há maior preocupação e cuidado da população feminina com a saúde? Isso ajuda neste momento?

As mulheres, de fato, em disparada, são muito mais cuidadosas com a sua saúde, com seus companheiros, com seus filhos. Já vem dentro da mulher um chip de ‘maternar’, cuidar. Não precisa ser mãe, mas ela cuida de outra, cuida de si. Então elas tem mais percepção, tem mais sensibilidade para perceber as alterações do corpo.

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