Ansiedade na pandemia: Jovens e os transtornos ansiosos em tempos de isolamento social

Com a Psicóloga Elaine Chagas, sobre a saúde mental, em especial dos jovens, nesse período onde as relações sociais sofreram intensas transformações.

02-07-2020 – 12:20

Somos o país mais ansioso do mundo, e já somos o segundo em número de casos de COVID-19. O temor com a nova doença agrava a situação dos quadros ansiosos?


Elaine: Sim, com certeza. Os pacientes ansiosos possuem um modelo cognitivo de funcionamento, ou seja, um padrão na forma de refletir sobre ameaças diferente do que as pessoas que não possuem um quadro de ansiedade. Esse modelo cognitivo é capaz de maximizar os sintomas ansiosos quando diante de situações consideradas ameaçadoras e adversas como no caso da pandemia. Esse padrão de funcionamento leva os ansiosos a superestimar os riscos, ou seja, tudo que for ameaçador representa um perigo ainda maior e subestimam a própria capacidade de enfrentamento, ou seja, imaginam que não serão capazes de lidar com a ameaça ou adversidade pois lhe faltarão recursos internos ou externos para isso. A situação da COVID-19 no país tende a oferecer ainda mais sofrimento para essa população, em virtude de a ameaça ser real, com índices alarmantes e de que as pessoas muitas vezes possuem, de fato, poucos recursos disponíveis para lidar com ela.

Como tem sido sua experiência profissional, como psicóloga, durante a pandemia?


Elaine: Os desafios aumentaram e a demanda de trabalho mais que dobrou. Os pacientes que já estavam de alta, pediram suporte novamente; os que estavam em atendimento, pediram em sua grande maioria um suporte adicional; os sintomas que antes se apresentavam de forma mais branda, se tornaram mais graves e, por fim, dentro de uma mesma família, vários integrantes passaram a necessitar de suporte psicológico ou psiquiátrico além daquele que já estava em atendimento. Isso acontece especialmente quando um dos membros da famílias é algum profissional essencial, que inevitavelmente tem que se expor mais aos riscos.

Sintomas de transtorno de ansiedade podem ser confundidos com sintomas de COVID-19?


Elaine: Fazem parte dos sintomas fisiológicos de quadros de ansiedade a taquicardia, a falta de ar, tremores, boca seca, sensação de frio na barriga, dentre outros; os pacientes, diante de sintomas assim, podem ficar confusos sobre qual a sua origem, se se trata de sintomas ansiosos ou não.

A orientação das autoridades de saúde tem sido evitar idas constantes ao médico e a serviços de emergência, para evitar possíveis contágios. Quando um caso de crise ansiosa ou ataque de pânico pode ser considerada suficientemente grave para procurar um médico?


Elaine: Quando vier acometida por outros sintomas como febre, dores de garganta ou perda do olfato e paladar, mas principalmente quando esses sintomas não passam, quando são ininterruptos. Os sintomas fisiológicos provenientes de crises ansiosas tendem a cessar em um prazo máximo de 180 minutos, e reduzem significativamente ou passam com exercícios de respiração diafragmática ou práticas de mindfulness. Já os sintomas fisiológicos provenientes de quadros como esses tendem ao agravamento. De toda forma, é aconselhável sempre buscar orientação de profissional especializado.

A maioria dos transtornos ansiosos se manifesta no início da vida adulta… Com a antecipação das responsabilidades adultas para antes dos 18 anos, esses transtornos tendem a aparecer mais precocemente?


Elaine: Os quadros de ansiedade em sua grande maioria têm início na infância, mas é comum os adultos subestimarem os sintomas ansiosos das crianças e não oferecerem o suporte necessário quando são pequenas ou até mesmo na adolescência, acreditando que “vai passar”. Entretanto, ansiedade é de curso crônico e os sintomas tendem a ficar mais graves com o passar do tempo. Um quadro diagnóstico, quando configurado, pode trazer prejuízos importantes na qualidade de vida do indivíduo e a intervenção com um profissional da área é o que pode garantir que cessem.

Que tipos de problema podem aparecer com a solidão na pré-adolescência e adolescência?


Elaine: A adolescência traz com ela desafios e mudanças esperadas dessa faixa etária como, por exemplo, o tédio, uma irritabilidade ou isolamento em algum nível. É muito importante a diferenciação do que é e do que não é esperado durante esse período, e o que pode ajudar a saber a diferença é a observação dos prejuízos que esses novos comportamentos podem estar trazendo para os adolescentes. A queda no rendimento escolar, a perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, alterações na rotina de sono e alimentação e prejuízos nas relações interpessoais podem ser importantes indicativos.

A “escalada” do adolescente no meio social, própria dessa idade, fica suspensa durante a pandemia, ou há adaptação desse processo?


Elaine: A adaptação é necessária e até esperada por parte deles que geralmente buscam as interações sociais de alguma maneira. As mídias sociais são uma potente ferramenta nesse sentido.

Como o jovem pode se proteger de transtornos ansiosos em tempos de isolamento social?


Elaine: Buscando manter uma rotina possível das atividades do dia a dia como estudo ou alguma outra que tinha o hábito de fazer; cuidando da saúde do corpo e da mente com a prática de exercícios físicos, alimentação saudável e rotina de sono; evitando uso de substâncias que possam alterar essas rotinas; evitando a contaminação com excesso de notícias ou notícias e fonte duvidosa e por fim, procurando atendimento profissional caso perceba necessidade.

Os pais enfrentam constante apreensão e preocupação com a saúde emocional dos filhos, principalmente em situações atípicas. Como os pais podem auxiliar emocionalmente os filhos adolescentes, para que não sobrevenham complicações emocionais nesse período?

Elaine: O que nunca pode faltar é a observação atenta e o diálogo. Muitas vezes os pais se preocupam, mas não monitoram o que os filhos estão fazendo e nem observam alterações que sejam mais sutis nos comportamentos deles. A conversa olho no olho e disposição de um tempo de qualidade para as interações familiares pode ser a mais importante ferramenta de identificação de possíveis problemas, estando diante de adversidades ou não.Na atual situação de saúde pública que estamos vivendo, buscar acolher os filhos nas suas demandas de uma forma compassiva e sem julgamento, ouvir como estão se sentindo e quais estão sendo os seus maiores desafios, falar abertamente, inclusive relatando como eles mesmos se sentem, como os próprios pais tem se sentido e enfrentado tudo isso, leva o adolescente a se sentir pertencente, seguro e conectado com seus pais. Isso, além de curativo, é preventivo em saúde mental.


E os próprios pais? Como não tornar a preocupação com os filhos doentia? Como manter uma relação de auxílio que seja saudável para ambos os lados?

Elaine: Os pais devem se observar e observar o ambiente familiar. O ambiente quando hostil ou ameaçador contribui para o desenvolvimento e manutenção de sintomas em todos os que ali habitam. Uma boa maneira de fazer isso é comparar a forma que era e que se relacionavam e com a forma que estão fazendo isso agora. Deve-se levar em conta aspectos que vão muito além da mudança de rotina, mas a forma como se sentem e a forma como interagem. Transformar o ambiente familiar em um ambiente acolhedor e seguro deve ser o objetivo de todos que convivem, muitas vezes problemas pré-existentes se tornam mais evidentes ou novas questões emergem à partir do aumento da convivência. Comparar e intervir visando o bem estar de todos merece atenção e investimento tanto dos filhos quanto dos pais.

Quando sobrevier o ‘novo normal’, no pós-pandemia, é esperado que crianças e adolescentes enfrentem problemas ou mesmo resistência em se adaptar?


Elaine: O “novo normal” é inevitável, todos nós vamos precisar reinventar e readaptar as novas rotinas; aceitar isso não necessariamente significa achar bom ou concordar, significa fazer o melhor que podemos em cada momento e ensinar para as crianças o efeito bumerangue, ou seja,  aquilo que lançamos muito mais facilmente é o que volta para nós; se mesmo sem vontade lançarmos cuidado e prevenção com nossa saúde e saúde de todos, mais facilmente vamos receber de volta a nossa saúde e a saúde de outros.

Quando falamos de coronavirus, estamos falando de uma doença ainda sem cura e pouco conhecida…  A ocorrência de um teste positivo para COVID-19 têm potencial de gerar quadros de ataque de pânico? Como controlar o medo ao se deparar com um diagnóstico de COVID-19?


Elaine: Uma crise do Pânico pode ocorrer em qualquer evento que provoque grande estresse. Quando se trata de uma situação na qual temos pouco ou nenhum controle, as chances disso se agravar aumentam. Pacientes contaminados podem ter desfechos muito diferentes, ainda não se sabe o que acontece para que enquanto uns falecem outros são assintomáticos. O medo é uma emoção inata que nascemos programados para sentir e que serve para nos proteger avisando quando estamos diante de uma ameaça para que possamos fazer algo para nos proteger e sobreviver. Não vamos conseguir controlar o que sentimos, mas conseguimos escolher o que fazer quando sentimos. No caso da contaminação é agir seguindo as recomendações dos profissionais de saúde.

Além da ansiedade, o país possui números muito elevados quando o assunto é Depressão. Como a pandemia atinge os deprimidos?


Elaine: Segundo informações da Organização Mundial da Saúde, ansiedade e depressão atinge a vida de 260 milhões de pessoas em todo o mundo. Em meio a Pandemia, os sintomas podem se agravar principalmente pelo fato de aumentarem as condições do isolamento e dos pacientes, o fato de estarem de fato tendo significativas perdas em detrimento da Pandemia e terem suas rotinas alteradas.
As pessoas deprimidas, de forma geral, relatam desesperança comumente proveniente de uma visão de si de serem incapazes e falhos, uma visão do mundo, de um lugar perigoso e julgador e uma visão de futuro como incerto. Em momentos difíceis essas visões ganhar maior abrangência e permanência, maximizando sintomas que podem gerar impactos cada vez maiores nos pacientes.

Os casos que representam risco de suicídio necessitam de maior atenção durante a pandemia?

Elaine: Certamente que sim. Os pacientes de risco, especialmente os que sofrem de intensa desregulação emocional e impulsividade, necessitam maior atenção e acompanhamento.  Os recursos comumente utilizados por essas pessoas, com intuito de diminuir a intensidade do desconforto gerado pelas emoções desagradáveis de sentir, podem produzir um desfecho trágico e perigoso como a automutilação, o abuso de substâncias ou ideação e comportamento suicida. No Brasil, pessoas que se sentem desesperadas e que precisam de acolhimento emergencial podem e devem procurar a CVV (Centro de valorização da vida), através do número 188. A ligação é sem custo e os profissionais são treinados para ouvir e ajudar no direcionamento nesses casos. A busca por profissional para um tratamento em saúde mental é um recurso saudável e possível para os problemas. O suicídio não é, e nem precisa ser, uma opção de resolução de nenhum tipo de problema ou sofrimento emocional.

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